O encerramento da Moratória da Soja pode resultar na derrubada de 1,4 milhão de hectares de floresta amazônica ao longo da próxima década, segundo um estudo publicado na revista científica Science. A estimativa representa um aumento de 14% em relação às taxas históricas de desmatamento registradas na região.

Além da perda de cobertura florestal, os pesquisadores calculam que esse cenário poderá gerar a emissão de aproximadamente 745 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) — volume semelhante às emissões anuais do Canadá.

O tema também deverá ganhar novos desdobramentos no campo jurídico. O Supremo Tribunal Federal (STF) retomará, a partir de 12 de agosto, o julgamento de ações que discutem a legalidade da Moratória da Soja.

O que é a Moratória da Soja

Criada em 2006, a Moratória da Soja é um compromisso firmado entre empresas do agronegócio, organizações da sociedade civil e o governo para impedir a compra de soja produzida em áreas da Amazônia desmatadas após 2008.

O estudo foi elaborado por pesquisadores da WWF-Brasil, Greenpeace Brasil, Land Conservation Association e das universidades de Wisconsin e Illinois, nos Estados Unidos.

Pesquisa aponta risco de avanço sobre áreas públicas

Segundo os autores, a extinção do acordo pode ampliar a pressão sobre regiões ainda preservadas e favorecer a ocupação de áreas com potencial para expansão agrícola.

A pesquisa estima que até 28,7 milhões de hectares de florestas públicas poderão sofrer influência desse processo, sobretudo em locais onde há expectativa de novos investimentos em infraestrutura.

Dados indicam redução do desmatamento

Os pesquisadores também analisaram os resultados obtidos desde a implantação da Moratória da Soja.

De acordo com o levantamento, nos dez primeiros anos de vigência do acordo houve uma redução de 35% no desmatamento em áreas consideradas de maior risco para a expansão da cultura da soja. Nesse período, cerca de 1,8 milhão de hectares de floresta deixaram de ser desmatados.

Para o pesquisador Tiago Reis, da WWF-Brasil, o mecanismo demonstrou que é possível ampliar a produção agrícola sem avançar sobre novas áreas de floresta.

"A Moratória da Soja mostrou que é possível ampliar a produção agrícola mantendo critérios de conservação. O desafio agora é garantir que instrumentos capazes de reduzir o desmatamento continuem fazendo parte da estratégia brasileira de desenvolvimento", afirma.

Estudo contesta críticas ao acordo

A pesquisa também avaliou argumentos de que a Moratória teria reduzido oportunidades econômicas para produtores rurais.

Segundo os autores, apenas cerca de 739 mil hectares aptos ao cultivo de soja foram desmatados legalmente após 2008, e a maior parte dessas áreas não pertence a propriedades produtoras de soja.

Além disso, o levantamento identificou aproximadamente 1,7 milhão de hectares de áreas já abertas e adequadas ao plantio na Amazônia, o que permitiria ampliar a produção sem necessidade de novos desmatamentos.

Os pesquisadores também afirmam que não encontraram evidências de que o acordo tenha provocado distorções de mercado ou reduzido os preços pagos aos produtores.

Segundo Tiago Reis, a adoção de critérios ambientais e de rastreabilidade fortalece a competitividade do setor diante das exigências dos mercados.

"Ao adotar compromissos de controle do desmatamento e de rastreabilidade, o setor contribui para proteger a floresta, preservar serviços ecossistêmicos essenciais para a própria agricultura e responder às crescentes demandas dos mercados nacionais e internacionais."

STF volta a analisar ações em agosto

O debate sobre a Moratória da Soja também chegou ao Supremo Tribunal Federal.

Em 5 de janeiro de 2026, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), que reúne empresas como Cargill, Bunge e ADM, anunciou sua saída do acordo.

Quatro ações relacionadas ao tema tramitam no STF. Uma tentativa de conciliação entre representantes do agronegócio, indústria, Ministério Público e organizações ambientalistas foi iniciada em março deste ano, mas terminou sem consenso em junho.

Com isso, os processos retornaram aos ministros relatores e devem começar a ser julgados pelo plenário em 12 de agosto.

Entre os temas que serão analisados está a decisão liminar do ministro Flávio Dino, que suspendeu ações judiciais e procedimentos administrativos contrários à Moratória da Soja. Os ministros também examinarão ações que questionam a constitucionalidade de uma lei de Mato Grosso que retira incentivos fiscais e benefícios de empresas signatárias do acordo.

Com informações Agência Brasil