Ela tinha nome, sobrenome, provavelmente sonhos, familiares e amigos que hoje devem chorar, não apenas a sua perda, mas a forma vergonhosa como foi tratada após sua partida deste mundo. Vilipendiaram não apenas a sua identidade, o seu corpo, mas também a sua história e imagem. Tratada como “amante”, o real motivo de sua morte talvez nunca seja, de fato, esclarecido, mas o assunto precisa ser falado e o trago aqui com muita dor no coração.
Se morreu durante um ato sexual, se foi morta pelo então companheiro, negligenciada ou não. nada disso parece importar aos colegas da imprensa. O fato de ter seu corpo abandonado em uma vala parece nada ter de tão grave quanto o fato de que se tratava de uma mulher ‘pega no adultério’.
Sua foto tem estampado o noticiário local sem qualquer traço de compaixão, como quem apenas deseja chocar a opinião pública e angariar likes ou comentários maldosos.
E eu pergunto: E o suposto casado que estava com ela? Por que não jogaram e pisotearam a imagem dele também? Pouquíssimos veículos se preocuparam em buscar outras vertentes desta investigação, pensando em esbarrar em um possível feminicídio. Afinal, seria apenas mais um número na nossa triste realidade de violência doméstica? Não! O que causa impacto mesmo é chamá-la de ‘amante’ e dizer que ‘morreu infartada durante o ato sexual e depois abandonada em uma vala’, sem pudor, sem piedade, sem … necessidade.
E aos meus colegas da imprensa fica a pergunta que não quer calar em mim: “Que jornalismo é esse que expõe assim a imagem de uma pessoa, uma mulher, sabe-se lá se uma mãe ou avó, filha ou irmã? Onde é que vocês estão com a cabeça?”
É urgente e necessário que paremos para refletir: qual é o limite entre informar e desumanizar? Quando a busca por cliques se sobrepõe ao compromisso com a verdade e ao respeito pela dignidade humana, o jornalismo deixa de cumprir seu papel essencial na sociedade e passa a ser cúmplice da barbárie. Precisamos, sim, debater, com seriedade e ética, que tipo de imprensa queremos ser e consumir. Não se trata apenas de linhas editoriais, mas de responsabilidade com os fatos e, principalmente, com as pessoas envolvidas neles. Afinal, amanhã, a manchete pode ter outro nome, outro rosto e pode ser alguém que você ama























