OPINIÃO

Entre o medo e o amor, a história de uma decisão tomada para estar presente
20 de janeiro: O dia em que escolhi viver
Foto: Arquivo/Willian Oliveira

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O dia 20 de janeiro nunca foi comum para mim. A data celebra São Sebastião, santo que representa resistência, fé e perseverança. E foi exatamente em 20 de janeiro de 2018, há oito anos, que tomei a decisão que mudou o rumo da minha vida.

Minha trajetória foi marcada por trabalho duro e entrega. Sou formado em Fisioterapia, profissão que amo, mas que financeiramente não se sustentou em Campo Grande naquele período. Atuei por mais de 12 anos na política, entre Assembleia Legislativa e Câmara Municipal, quase sempre na linha de frente da logística. Trabalhei também como terceirizado na concessionária de energia, na área administrativa, até conseguir uma vaga na Câmara Municipal, onde permaneci por mais de uma década. Dirigi Kombi, carreguei cadeiras, organizei estruturas, resolvi problemas e fiz tudo o que estava ao meu alcance para que o trabalho acontecesse. Sempre acreditei que servir bem era uma forma de dignidade.

Em maio de 2017, recebi uma notícia que redefiniu todas as minhas prioridades: eu seria pai. Não era casado, ainda morava com meus pais e, naquele momento, não sei dizer se senti mais alegria ou medo. Porém, havia algo muito claro dentro de mim: eu sempre sonhei em ser pai e queria ser um pai presente, ativo e saudável. Naquela época eu pesava 193 quilos.

Desde criança sou grande fisicamente. Nasci com quase 4 quilos, uma herança paterna. Com o tempo, os problemas vieram: hipertensão, dores constantes, limitações de mobilidade e, aos 16 anos, o diagnóstico da Síndrome de Wolff-Parkinson-White.

As piadas e o bullying fizeram parte da minha história. Desde criança, aprendi a conviver com isso e, curiosamente, não foram esses episódios que me derrubaram. O que realmente me abalou foi perceber que, com a saúde daquele jeito, talvez eu não conseguisse acompanhar o crescimento da minha filha. A ideia de não correr, não brincar, não participar ativamente da vida dela foi o que, de fato, me despertou.

Senti que era a hora, e a cirurgia bariátrica deixou de ser um pensamento distante para ser uma possibilidade concreta. Comecei a buscar informações, procurei médicos, ouvi relatos de quem já tinha passado pelo procedimento e cheguei ao nome do Dr. James Câmara, inclusive por indicação de um ex-chefe. Iniciei todo o protocolo necessário, passando por consultas, exames e avaliações clínicas rigorosas. Havia a parte nutricional, psicológica e, no meu caso, um cuidado ainda maior com o coração.

Eu era hipertenso e, desde os 16 anos, convivia com o diagnóstico da Síndrome de Wolff-Parkinson-White, uma condição cardíaca que exige atenção constante. Passei por avaliação cardiológica detalhada, exames específicos e acompanhamento próximo, porque qualquer decisão precisaria considerar não apenas o peso, mas os riscos reais envolvidos. Cada consulta reforçava a gravidade do meu quadro e, ao mesmo tempo, a necessidade de agir com responsabilidade.

Em três meses, o processo avançava, mas não sem tensão. A cada etapa, o medo aparecia junto com a certeza de que aquela decisão não era simples, nem rápida. Na última fase, veio a avaliação psiquiátrica. Entrei naquela sala carregando não apenas exames e laudos, mas também ansiedade, expectativa e esperança. O profissional foi cuidadoso e direto. Disse que via em mim um quadro importante de ansiedade e que precisava ter segurança de que eu estava preparado para o que viria depois da cirurgia. Em determinado momento, falou que não poderia autorizar algo que, se mal conduzido, poderia se tornar um atestado de óbito. Aquela frase não soou como confronto, mas como um alerta duro e necessário.

Eu não discuti. Não rebati. Apenas respirei fundo e falei do que realmente importava. Falei da minha filha, que estava para nascer. Falei do medo de não conseguir acompanhá-la, de não participar da vida dela, de não estar presente. Disse que entendia os riscos, que respeitava cada etapa do processo, mas que a obesidade, somada à hipertensão e ao problema cardíaco, já representava uma ameaça real à minha vida. Com os olhos marejados, deixei claro que aquela decisão não vinha do impulso, mas do amor e da responsabilidade de querer viver para ser pai.

Houve silêncio. Um daqueles silêncios que dizem muito. Ao final, ele me olhou, assinou o laudo e disse apenas: seja feliz.

A cirurgia foi marcada para 20 de janeiro de 2018, Dia de São Sebastião. Não foi uma data qualquer para mim. Pedi força, coragem e proteção para atravessar aquele processo com responsabilidade, consciente de que aquela decisão não encerrava um problema, mas iniciava um compromisso para o resto da vida.

Hoje, exatos 8 anos depois, celebrando mais um Dia de São Sebastião, sigo firme. A cirurgia me deu uma chance, mas viver bem é uma escolha feita todos os dias. E a propósito, tenho uma filha linda.

Por Willian Oliveira

SOBRE O AUTOR

Foto de Willian Oliveira Silva

Willian Oliveira Silva

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