Lembro-me de acordar no meio da noite com o telefone tocando. Do outro lado, um amigo próximo me avisava que um grande amigo em comum, com o qual nos reuníamos com frequência, havia tirado a própria vida. Ele o fez durante o final de semana, após publicar foto se divertindo na sexta-feira. Mesmo com acompanhamento psicológico e tomando antidepressivos, aconteceu. Talvez, você que está lendo já tenha passado por situação parecida com amigo ou familiar, muitos outros passaram. A taxa de suicídio entre homens em Mato Grosso do Sul é quase três vezes maior que a das mulheres na última década, aponta levantamento da Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). De 2015 a 2025 foram registradas 1.695 mortes de homens contra 458 de mulheres.
Nesta semana, em alusão ao Setembro Amarelo, deputados deram o alerta na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS). É urgente a necessidade de políticas públicas e ações de acolhimento específicas para homens. No contexto do Setembro Amarelo, uma campanha foi instituída pela Lei Estadual 4.777/2015, de autoria da deputada Mara Caseiro (PSDB).
“Falar sobre prevenção ao suicídio é um compromisso de toda a sociedade. Não se trata apenas de uma data no calendário, mas de um movimento de conscientização que salva vidas. O silêncio, muitas vezes, é o maior inimigo de quem sofre. Por isso, precisamos quebrar tabus, ampliar os espaços de acolhimento e levar informação às escolas, famílias e comunidades. A campanha existe para lembrar a todos que pedir ajuda é um ato de coragem e que ninguém precisa lutar sozinho contra a dor e a depressão”, afirmou a deputada Mara Caseiro.
Por que os homens evitam procurar ajuda?
Especialistas consultados pela reportagem apontam fatores culturais e comportamentais que ampliam o risco entre homens. A psicóloga e psicanalista Kerolly Lopes explica que diferenças na autopercepção dificultam o diagnóstico precoce. “As mulheres têm uma autopercepção de si, da sua saúde mental, da sua saúde corporal, dos seus sentimentos de uma forma mais aguçada. Com isso elas podem tratar de forma mais rápida os sintomas depressivos. Ao passo que nos homens, essa falta de percepção, lá do comecinho dos sintomas, fica mais camuflado, perante às preocupações do dia a dia, por serem mais racionais, por não pensarem tanto nos sentimentos. Então quando chega a esses pensamentos suicidas, a depressão já está muito profunda. Eles se assustam e não têm mais tanto tempo para se tratar.”
O médico do CAPS em Campo Grande Vitor Hugo Leite de Oliveira Rodrigues, especialista em emergências psiquiátricas, destaca o isolamento como sinal clássico e lembra que o tema ainda é marcado por preconceitos. “O isolamento social, a perda do prazer de atividades que fazia e hoje não quer mais, como a prática de esporte ou quaisquer que sejam, são os indicativos mais clássicos iniciais do processo depressivo, além de choro frequente e crises de ansiedade. Sempre ofereça ajuda, porque é um tema muito tabu, tem muito preconceito envolvido e por isso precisamos do mês do Setembro Amarelo para mostrar que não tem nada de fraqueza em pedir ajuda”, afirmou.
Sintomas e sinais de alerta
Profissionais da saúde mental listam sinais que merecem atenção e, quando observados, devem levar a uma oferta imediata de apoio profissional: alterações de humor persistentes; apatia e sentimento de inutilidade; perda de energia, dificuldade de concentração e diminuição da iniciativa; queixas físicas sem causa aparente, como dores e problemas digestivos; mudanças no sono e no apetite; e redução do interesse sexual. Sinais de risco direto incluem expressões verbais que indiquem desejo de morrer, como “vou desaparecer”, “vou deixar vocês em paz”, “eu queria poder dormir e nunca mais acordar” e enunciados que revelem desesperança e desistência.
Depressão, trabalho e direitos sociais
A depressão é a condição mental mais associada ao suicídio e também figura entre as principais causas de afastamento do trabalho. Em Mato Grosso do Sul, foram registrados 2.408 afastamentos por depressão em 2024, segundo dados do Ministério da Previdência. A advogada Kelly Luiza Ferreira do Valle lembra que o acesso a benefícios previdenciários pode ser decisivo para o tratamento.
“No Brasil existe um percentual muito maior de homens, enormemente jovens, que chegam ao suicídio em razão da depressão. É importante esclarecer que existem, assim como as mulheres em estado de depressão, o direito a afastamentos para fazerem tratamentos e terem esse tempo enquanto estão nesse estado de dor latente, enquanto estão medicados. A gente sabe que o tratamento de depressão não é algo rápido. Então, o que eu aconselho é que procure um psiquiatra. Pode ser pelo sistema público via CAPS ou particular, pois para o INSS não faz diferença se o tratamento acontece pelo SUS ou pelo privado. Procure laudos que descrevam o quanto a sua depressão está te incapacitando, não só para o seu trabalho, mas para o seu dia a dia mesmo, que isso pode sim gerar um benefício perante o INSS.”
Direitos, tratamento e onde buscar apoio
O tratamento para depressão combina medicação e psicoterapia. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) oferecem atendimento gratuito e são porta de entrada para o SUS em casos moderados e graves. Além dos CAPS, unidades básicas de saúde e serviços de referência municipais prestam acolhimento e podem orientar sobre encaminhamentos. Em caso de necessidade de afastamento do trabalho, é importante obter laudos e relatórios clínicos que evidenciem a incapacidade para as atividades laborais, o que fortalece pedidos de auxílio junto ao INSS.
A rede estadual e municipal disponibiliza CAPS e outros serviços de saúde mental; procure a lista estadual das unidades do CAPS para encontrar a unidade mais próxima. Em situações de crise, buscar atendimento emergencial no hospital ou acionar serviços de suporte emocional pode ser determinante.













