De passos cautelosos à liberdade plena, quatro pacas reabilitadas voltaram à natureza em pleno coração do Pantanal sul-mato-grossense. Elas foram as primeiras a cruzar o cercado na Reserva Santa Sofia, em Aquidauana, onde uma nova etapa de reintegração de animais silvestres começou a ganhar forma neste mês de julho. Tucanos, macacos-prego e outras espécies também fazem parte do esforço conjunto entre o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) e o projeto Onçafari para devolver à fauna pantaneira o que lhe é de direito: o território, o voo, a floresta, a vida em liberdade.
As ações foram conduzidas pelo Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), ligado ao Imasul, e incluíram três frentes: soltura direta de animais prontos para retornar ao ambiente natural, aclimatação de espécies ainda em processo de readaptação e início de um sistema inédito de monitoramento via colares VHF.
Entre os destaques, está a soltura das quatro pacas, que passaram por meses de recuperação antes de reencontrar o habitat. Pouco depois, outros protagonistas ganharam espaço: onze tucanos-toco (Ramphastos toco), resgatados do tráfico de fauna, chegaram ao recinto de aclimatação para aves, onde permanecerão até estarem prontos para alçar voo livre.

Tecnologia acompanha macacos em retorno à mata
Em outro ponto da reserva, macacos-prego-do-papo-amarelo (Sapajus libidinosus) iniciaram uma nova fase de adaptação com o uso de colares de rastreamento por radiofrequência, tecnologia VHF, utilizada pela primeira vez em primatas no CRAS. O acompanhamento permitirá à equipe técnica monitorar os deslocamentos dos animais após a soltura, garantindo suporte durante os primeiros meses de reintegração e gerando dados valiosos sobre seu comportamento em liberdade.
A gestora do CRAS, Aline Duarte, não esconde a emoção ao ver os resultados do trabalho. “Ver esses animais voltarem à natureza é um presente. São histórias de superação. Muitos chegaram aqui debilitados, sem perspectiva. Hoje, voltam a viver o que sempre foi deles por direito: a liberdade”, afirma.
Histórias reescritas no coração do Pantanal

A Reserva Santa Sofia, onde as ações se concentraram, é administrada pelo projeto Onçafari e abriga uma estrutura voltada à reabilitação e soltura de espécies nativas do bioma, como onças-pintadas, araras, antas, aves de rapina, ungulados e primatas. O local é um dos mais ativos do país na prática de reintegração de fauna em áreas protegidas.
“Cada soltura é uma vitória. É como apagar, pouco a pouco, as marcas da violência sofrida por esses animais. Trabalhamos todos os dias para que eles tenham uma nova história, desta vez, escrita na liberdade da natureza”, observa a médica-veterinária Jordana Toqueto, da equipe técnica do CRAS.
Para o diretor-presidente do Imasul, André Borges, as ações reforçam o papel do Estado na preservação do patrimônio natural. “Essas ações representam o compromisso do Governo do Estado com a conservação da biodiversidade. O trabalho técnico do Imasul, aliado a parcerias, garante que os animais possam ter uma nova chance de viver em liberdade, cumprindo seu papel ecológico no ambiente natural”, avalia.
Mais que números, as histórias construídas no Pantanal neste julho mostram que a conservação não é apenas um dever técnico, é também um ato de reparação. Para cada paca, tucano ou macaco que volta ao seu lugar no mundo, a natureza recupera um elo. E o bioma ganha fôlego para seguir vivo.














