Cleyla Borges — ou Leila, como era conhecida pelas amigas — tinha apenas 36 anos, mas parecia carregar décadas em seus ombros. Mãe solo de dois meninos, um de 13 e outro de 16 anos. O mais velho era acamado, com paralisia cerebral grau três. Leila vivia uma rotina exaustiva, como tantas outras mães que cuidam sozinhas, sem rede, sem pausa, sem escolha.
Ela estava doente. Precisava de exames. Mas quem cuida de todos, muitas vezes, não consegue cuidar de si. Leila adiava o próprio tratamento porque não tinha com quem deixar os filhos. Porque, na balança da maternidade atípica, a própria vida quase sempre pesa menos.
Leila passou mal. Buscou ajuda em uma unidade de pronto atendimento, mas mandaram-na para casa, segundo o médico, ela estava bem.
Só que a maternidade atípica nos ensina a não aceitar tudo o que nos dizem. Aprendemos a confiar no nosso sexto sentido, aquele que Deus nos deu para proteger os nossos. E quando ele apita, a gente não para.
Foi o que ela fez. Procurou um hospital público. Chegando lá, teve três paradas cardíacas. E ela, que já suportou tanto, dessa vez não aguentou.
A causa da morte? O descaso.
Descaso com a saúde de quem cuida. Descaso com uma realidade invisível, onde mães se tornam médicas, fisioterapeutas, enfermeiras, assistentes sociais, advogadas… E esperam que sejamos feitas de aço.
Acham que temos superpoderes. Que somos invencíveis.
Mas esquecem que somos apenas mães.
O caso da Leila não é exceção. É regra.
Mães que passam anos dentro de hospitais, mas não conseguem tempo para irem ao médico como pacientes.
Mães que não podem adoecer porque não têm quem cuide delas, nem dos seus.
Mães que vivem na corda bamba entre o cuidado e o abandono institucional.
Agora, todos perguntam:
“E os meninos? Quem vai cuidar deles?”
Mas a pergunta que deveríamos fazer é:
Quantas Leilas ainda precisarão morrer para que a sociedade enxergue o colapso silencioso da maternidade atípica?
Quantas mães vão precisar gritar em silêncio até que o poder público compreenda que cuidar de quem cuida é urgente?
Quantas histórias como a da Leila ainda serão enterradas sem que nada mude?
O grito está dado.
Se ninguém escutar, nossos corpos seguirão gritando.
E, quando não houver mais força, ele silenciará!






















