A desocupação da Fazenda São Sebastião, em Sidrolândia, abriu um novo capítulo nas discussões sobre a regularização da Terra Indígena Buriti. Os indígenas que ocupavam a propriedade deixaram o local na manhã deste domingo (14), após orientações ligadas às negociações conduzidas por órgãos federais, enquanto representantes do governo federal tentam construir um caminho de entendimento entre o povo Terena e os proprietários rurais da região.
De acordo com o Ministério dos Povos Indígenas, a saída ocorreu por volta das 11 horas. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) permanece na área realizando tratativas com lideranças indígenas e autoridades estaduais para evitar novos episódios de tensão e buscar alternativas para o conflito fundiário que se arrasta há mais de uma década.
A principal reivindicação dos Terena é a retomada do processo de demarcação da Terra Indígena Buriti, território reconhecido oficialmente e delimitado em aproximadamente 17,2 mil hectares. Parte da área, no entanto, continua sob posse privada, situação que segue sem solução definitiva.
Segundo o ministro dos Povos Indígenas, Luiz Henrique Eloy Amado, o governo federal trabalha para reativar uma mesa permanente de diálogo voltada à discussão da área reivindicada. A expectativa é de que novas reuniões ocorram nos próximos meses envolvendo representantes indígenas, produtores rurais e integrantes da União.
Conflito antigo permanece sem definição
A disputa pela Terra Indígena Buriti é marcada por episódios de violência e embates judiciais. O processo de regularização está paralisado desde 2013, apesar de estudos e atos administrativos anteriores reconhecerem a ocupação tradicional do território pelo povo Terena.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) afirma que a retomada da Fazenda São Sebastião da Serra ocorreu diante da ausência de avanços concretos no procedimento demarcatório ao longo da última década. A entidade sustenta que aproximadamente um terço da área reconhecida da Terra Indígena Buriti permanece em posse de particulares.
O histórico de conflitos na região inclui a morte de Oziel Gabriel Terena durante uma ação de reintegração de posse em maio de 2013. Dias depois, Josiel Gabriel Terena foi atingido por um disparo e ficou tetraplégico. Ambos os casos ocorreram em áreas ligadas à disputa territorial.
Ainda segundo o Cimi, tentativas de conciliação realizadas nos últimos anos não resultaram em acordo definitivo. Em audiência promovida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, proprietários rurais chegaram a aceitar uma proposta de indenização apresentada anteriormente pelo governo federal. A negociação, porém, não foi concluída.
Polícia investiga denúncias registradas durante ocupação
Enquanto as negociações avançam na esfera institucional, as forças de segurança seguem acompanhando os desdobramentos da ocupação encerrada neste domingo.
Em nota, a Polícia Militar informou que mobilizou equipes especializadas para atuar nas fazendas São Sebastião e Água Clara após denúncias envolvendo invasão de propriedade, vandalismo e crimes ambientais. Participaram da operação policiais do Comando de Policiamento Metropolitano, do Batalhão de Choque, do Batalhão Rural e do Batalhão Rodoviário.
A corporação relatou registros de danos em maquinários, furto de insumos agrícolas, focos de incêndio e derrubada de árvores utilizadas como barreiras de contenção. Proprietários também comunicaram o desaparecimento de equipamentos e máquinas.
O Ministério dos Povos Indígenas informou que a Funai acompanha a apuração das ocorrências e colabora para a identificação e eventual devolução de materiais que possam ter sido retirados das propriedades.
Segundo a Polícia Militar, equipes permanecem na região realizando diligências para localizar objetos levados durante os confrontos. As informações reunidas serão encaminhadas à Polícia Civil, responsável pela investigação e pela apuração de possíveis responsabilidades criminais.












