O avanço dos afastamentos por transtornos mentais no mercado de trabalho ganhou ritmo acelerado em Mato Grosso do Sul e passou a ocorrer em intervalos cada vez menores. Em 2025, um trabalhador é afastado por questões psicológicas a cada 54 minutos no Estado, reflexo de um cenário que combina aumento expressivo de casos e fragilidades no ambiente corporativo.
Os dados mais recentes indicam que o volume de licenças saltou de cerca de 9 mil, em 2024, para mais de 15 mil em 2025, um crescimento próximo de 70% em apenas dois anos. No país, o movimento segue a mesma direção: foram mais de 546 mil afastamentos no último ano, o maior número já registrado, consolidando os transtornos mentais entre as principais causas de licença do trabalho.
Ansiedade e depressão aparecem como os diagnósticos mais frequentes, associados a rotinas marcadas por pressão constante, metas elevadas e sobrecarga emocional. A estatística se materializa na experiência de trabalhadores que relatam exaustão progressiva até a interrupção das atividades profissionais, muitas vezes sem suporte prévio no ambiente de trabalho.
Pressão no trabalho e falhas nas empresas ampliam o problema
Especialistas apontam que o aumento dos afastamentos não pode ser interpretado apenas como questão individual. A psicóloga Giovana Guzzo Freire avalia que o cenário reflete a forma como o trabalho vem sendo organizado, com exigências contínuas e pouco espaço para equilíbrio emocional.
Segundo ela, a lógica de produtividade elevada e comparação constante contribui para o desgaste psicológico. “Esse modelo gera sofrimento psíquico e desgaste emocional. A psicoterapia passa a ser fundamental para ajudar o trabalhador a ressignificar essa relação com o trabalho”, afirma.
Outro fator apontado é a falta de preparo das empresas para lidar com a saúde mental dos funcionários. Mesmo com evidências de que políticas internas podem reduzir afastamentos, muitas organizações ainda não estruturaram estratégias de prevenção e acompanhamento.
A psicóloga Aletânia, que atua na área de saúde do trabalhador, reforça que o problema revela falhas estruturais. Para ela, ambientes com metas agressivas, alta cobrança e ausência de rede de apoio favorecem o adoecimento. “Sem políticas internas consistentes, o problema se repete e tende a se agravar”, afirma.
Abril Verde amplia debate sobre saúde mental no trabalho
O crescimento dos casos ocorre durante o Abril Verde, campanha dedicada à conscientização sobre saúde e segurança no trabalho. Tradicionalmente voltada à prevenção de acidentes físicos, a mobilização tem ampliado o foco para incluir também os impactos psicológicos das relações profissionais.
A discussão ganha relevância diante do peso econômico do problema. Estimativas da Organização Internacional do Trabalho indicam perdas de cerca de US$ 1 trilhão por ano em produtividade no mundo relacionadas a transtornos mentais, evidenciando que o tema ultrapassa a esfera individual e atinge diretamente a economia.
No âmbito estadual, a campanha foi instituída por lei e consolidou abril como período de mobilização sobre doenças ocupacionais. A iniciativa prevê ações educativas, campanhas públicas e estímulo à participação de empresas e da sociedade.
Diante do avanço dos afastamentos, especialistas defendem que o desafio passa a ser transformar a conscientização em prática, com adoção de políticas efetivas de prevenção, oferta de suporte psicológico e revisão das dinâmicas de trabalho que têm contribuído para o aumento dos casos.














