Famílias Guarani e Kaiowá ocuparam área reivindicada como parte da Terra Indígena Iguatemipeguá II; presença de forças de segurança marcou o dia na região de Limão Verde
Retomada de fazenda em Amambai provoca operação policial e amplia tensão por disputa territorial
Foto: Divulgação

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A ocupação de uma área rural reivindicada por indígenas Guarani e Kaiowá voltou a colocar Amambai no centro de uma das mais antigas disputas fundiárias de Mato Grosso do Sul. Na madrugada desta quarta-feira (17), famílias indígenas entraram na Fazenda Limoeiro, localizada nas proximidades da Reserva Limão Verde, território situado na faixa de fronteira do Estado.

A propriedade está inserida na área reivindicada como parte da Terra Indígena Iguatemipeguá II, que ainda passa por procedimentos administrativos e estudos técnicos conduzidos pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Após a retomada, equipes da Polícia Militar, do Batalhão de Choque e da Força Nacional foram deslocadas para a região.

Ao longo do dia, relatos de indígenas apontaram movimentação intensa de viaturas e uma ação policial voltada à retirada das famílias do local. Até o fechamento desta reportagem, não havia confirmação oficial sobre o número de detidos ou possíveis feridos.

Relatos apontam confronto durante operação

Indígenas que participaram da retomada afirmaram que a presença policial se intensificou durante a tarde. Segundo relatos obtidos junto a integrantes da comunidade, houve uso de bombas e disparos para dispersar as famílias que estavam na área ocupada.

Uma liderança ouvida pela reportagem relatou que os indígenas foram empurrados em direção à Reserva Limão Verde durante a ação.

“Mais de dez viaturas estavam na estrada. Recebemos informações de que a polícia invadiu e atacou. Foi muita correria, bombas e tiros empurrando as famílias para a aldeia. Parece que tem gente presa. Não sei se tem feridos”, afirmou.

Representantes da Funai informaram que integrantes da Força Nacional estavam no local buscando construir uma solução negociada entre os envolvidos. Conforme relatos apresentados por agentes do órgão, a tentativa de mediação ocorreu paralelamente à atuação das forças estaduais de segurança.

O episódio ocorre menos de dois meses após outra operação realizada na mesma área. Em 26 de abril, uma retomada anterior terminou com a retirada dos indígenas da Fazenda Limoeiro e a prisão de seis pessoas, entre elas duas mulheres e um adolescente.

Processo de demarcação se arrasta há quase duas décadas

A Fazenda Limoeiro está sobreposta ao tekoha Tapykora Korá, território tradicional reivindicado pelos Guarani e Kaiowá dentro da área identificada como Terra Indígena Iguatemipeguá II.

O Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) referente ao território está em elaboração desde 2008. O procedimento integra estudos antropológicos, históricos, ambientais e fundiários necessários para a continuidade do processo demarcatório.

A área também faz parte do Compromisso de Ajustamento de Conduta firmado em 2007 entre o Ministério Público Federal e a Funai. O acordo foi estabelecido diante da demora nos procedimentos de identificação territorial e da situação enfrentada por comunidades indígenas da região.

Lideranças Guarani e Kaiowá afirmam que a retomada está ligada à falta de conclusão dos processos de demarcação. Segundo elas, muitas famílias seguem vivendo em áreas reduzidas, acampamentos ou locais considerados inadequados para a sobrevivência das comunidades.

“Estamos cansados de esperar pela conclusão do procedimento administrativo. Aqui desde 2008. Quase 20 anos já. Enquanto isso, enfrentamos fome, falta de água e adoecemos com agrotóxicos”, declarou uma liderança indígena que pediu para não ser identificada.

A tensão em torno da Iguatemipeguá II não é recente. Somente no último ano, outras retomadas foram registradas dentro do território reivindicado, incluindo áreas conhecidas como Kurusu Central e Xurite Ambá. O caso segue sendo acompanhado por órgãos federais, lideranças indígenas, produtores rurais e forças de segurança.

SOBRE O AUTOR

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Odirley Deotti

Odirley Deotti é jornalista, escritor, designer gráfico e chefe de redação do Guia MS Notícias.

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