Escolher um candidato pode ser uma decisão tão particular que, para quase metade dos brasileiros, o melhor é nem comentar o assunto dentro de casa. Uma pesquisa inédita da Hibou Pesquisas e Insights aponta que 47% dos eleitores evitam falar sobre o próprio voto para não provocar conflitos.
O levantamento foi realizado entre 1º e 4 de setembro de 2026, com 1.449 brasileiros eleitores, e investigou como questões relacionadas a gênero, comportamento e discursos de candidatos aparecem nas escolhas eleitorais.
Os resultados mostram que a divergência política dentro dos relacionamentos não é necessariamente vista como um problema. Para 73% dos entrevistados, marido e mulher não precisam votar no mesmo candidato. Outros 18% consideram que isso depende da situação, enquanto 9% entendem que o casal deveria escolher o mesmo nome.
Escolha do candidato continua sendo individual
Mesmo com opiniões diferentes dentro de casa, parte dos entrevistados ainda considera natural compartilhar ou discutir a decisão. Entre os homens, 16% acreditam que o casal deveria decidir junto em quem votar.
Quando existe discordância, porém, a tentativa de convencimento aparece com intensidades diferentes. Vinte e dois por cento dos homens consideram aceitável insistir para que a companheira mude de voto. Entre as mulheres, o percentual é de 10%.
O levantamento também identificou uma percepção distinta sobre a capacidade de homens e mulheres tomarem decisões políticas. Embora 98% dos homens entrevistados afirmem que os dois gêneros têm a mesma capacidade para avaliar candidatos, 20% deles dizem se considerar mais centrados no momento de votar.
Além disso, um em cada quatro homens acredita que mulheres são “mais emocionais” e que essa característica pode “atrapalhar suas decisões políticas”.
Falas dos candidatos entram na decisão
O comportamento dos próprios candidatos também aparece entre os fatores considerados pelos eleitores.
Entre as mulheres, 80% afirmam levar em conta falas machistas de candidatos na hora de decidir o voto. Entre os homens, 23% dizem considerar esse tipo de manifestação, enquanto 14% afirmam que fazem isso algumas vezes.
A pesquisa também encontrou diferenças na percepção sobre a forma como opiniões políticas femininas são recebidas. Setenta por cento das mulheres dizem que uma mulher que manifesta uma opinião política forte é mais frequentemente chamada de “histérica”, “emocional” ou “desequilibrada” do que um homem na mesma situação.
Entre os homens, 28% reconhecem essa diferença.
Redes sociais também fazem parte do cenário eleitoral
A percepção sobre conteúdos relacionados à participação feminina na política varia de acordo com o gênero dos entrevistados.
Sessenta e dois por cento das mulheres afirmam já ter visto nas redes sociais publicações dizendo que mulheres não deveriam votar ou seriam facilmente manipuláveis. Entre os homens, 33% relatam ter encontrado esse tipo de conteúdo.
No conjunto dos entrevistados, 67% afirmam já ter ouvido a frase de que “mulher não sabe votar”. Outros 47% dizem saber que existem, nas redes sociais, tentativas de deslegitimar ou desestimular o voto feminino.
Para Ligia Mello, CSO da Hibou e coordenadora da pesquisa, os resultados refletem a presença de ideias que ainda circulam no ambiente digital e podem interferir na percepção sobre a participação feminina nas eleições.
“É a misoginia do voto, um conjunto de crenças enraizadas e normalizadas que permeiam movimentos contra o voto feminino nas redes sociais, encabeçados por influenciadores ‘Red Pill’”, afirma.
Corrupção tem peso maior entre os eleitores
A pesquisa também permite comparar a influência de diferentes características dos candidatos sobre a escolha eleitoral.
Enquanto 23% dos homens afirmam considerar falas ou posições machistas de um candidato, o histórico de corrupção aparece como um fator de rejeição muito mais abrangente: 96% dos brasileiros dizem que deixariam de votar em um candidato com histórico de corrupção.
Os dados fazem parte da pesquisa realizada pela Hibou Pesquisas e Insights exclusivamente para a plataforma educacional Red é de Sangue, com apoio da HeForShe, movimento global da ONU Mulheres que trabalha pelo engajamento de homens e meninos na promoção da igualdade de gênero, além de Sindilegis, Grupo MEMOH e outras organizações.
O levantamento completo está disponível para consulta e download na plataforma Red é de Sangue.