Entre obras, discursos e disputas por protagonismo, uma pergunta precisa ser feita: até onde pode ir a disputa política sem ultrapassar os limites da verdade, da ética e do respeito ao cidadão?

Em tempos de intensa disputa política, tornou-se cada vez mais comum ouvir discursos nos quais parlamentares e agentes públicos atribuem a si mesmos a autoria ou o mérito por obras, projetos e conquistas que, na realidade, resultaram do trabalho de outras pessoas, de diferentes gestões ou de uma construção coletiva envolvendo governos, servidores e a própria comunidade.

A pergunta que fica é simples: na política, vale tudo?

Pode um representante público afirmar que foi responsável por determinada obra quando sua participação não ocorreu daquela maneira? Pode dizer que “destravou” uma obra ou projeto quando os fatos demonstram que o processo já estava em andamento, ou que a solução veio por meio da atuação de outros agentes públicos?

A política é, por natureza, um espaço de disputa de ideias, projetos e resultados. É legítimo que cada parlamentar apresente à sociedade aquilo que realizou. O que não deveria ser legítimo é transformar a realidade em uma narrativa conveniente apenas para conquistar reconhecimento político.

Por que não dar os nomes certos às pessoas certas?


Se uma obra foi idealizada por uma administração, por que não reconhecer quem a idealizou? Se os recursos foram destinados por determinado governo ou parlamentar, por que não reconhecer sua participação? Se a execução dependeu de servidores públicos, técnicos, engenheiros, secretarias e da comunidade, por que apagar essas contribuições?

Uma obra pública não pertence politicamente a uma única pessoa. Ela pertence, antes de tudo, à sociedade que a financia e dela se beneficia.

É preciso diferenciar a atuação legítima de um parlamentar — como cobrar, fiscalizar, apresentar emendas, buscar recursos, intermediar demandas ou acompanhar a execução — da tentativa de apresentar como autoria exclusiva aquilo que foi construído por muitas mãos.

Também é preciso cuidado com expressões como “eu destravei”, “eu consegui” ou “foi graças a mim”. Em determinadas situações, a atuação política pode, de fato, ser decisiva para solucionar um problema. Mas, quando isso não corresponde aos fatos, a comunicação pública deixa de ser prestação de contas e passa a ser uma disputa pela narrativa.

A política precisa de memória e verdade


Reconhecer o trabalho de quem veio antes não diminui ninguém. Pelo contrário: demonstra grandeza. Um político não perde importância porque reconhece a contribuição de outro. Um governo não deixa de apresentar resultados porque admite que determinada iniciativa começou em uma administração anterior. E um parlamentar não deixa de exercer seu mandato porque divide o mérito com prefeitos, governadores, vereadores, deputados, servidores ou cidadãos.

O problema não está em buscar reconhecimento. O problema começa quando o reconhecimento é construído sobre uma versão dos fatos que não corresponde à realidade.

Em uma democracia, o cidadão merece mais do que discursos bem elaborados. Merece transparência.

A ética na política não deveria ser tratada como um detalhe ou como uma virtude opcional. Deve estar presente justamente quando ninguém está fiscalizando o discurso, quando seria mais fácil levar o crédito sozinho ou quando admitir a participação de outra pessoa poderia significar perder alguns segundos de protagonismo.

Política deveria significar serviço.

E servir ao povo significa compreender que uma escola construída, uma unidade de saúde entregue, uma avenida recuperada, uma obra de infraestrutura concluída ou um recurso destinado não deve ser transformado em propriedade eleitoral de quem aparece na fotografia.

O verdadeiro beneficiário é o cidadão


Por isso, talvez seja hora de substituir a pergunta “quem levou o crédito?” por outra muito mais importante: quem realmente trabalhou para que acontecesse e quem será beneficiado pelo resultado?

A sociedade não precisa de políticos que sejam donos das obras. Precisa de representantes que tenham compromisso com a verdade sobre elas.

Porque, no fim das contas, a política pode até ser uma disputa por espaço, votos e reconhecimento. Mas não deveria ser uma disputa para ver quem consegue contar a maior versão de si mesmo.

Ética, moralidade, transparência e respeito à verdade não podem existir apenas nos discursos de campanha. Precisam existir nas atitudes.

Dar a César o que é de César, reconhecer quem realmente fez e colocar o interesse público acima do protagonismo pessoal talvez seja uma das formas mais simples — e mais importantes — de devolver credibilidade à política.

Afinal, quando uma obra é realizada, pouco importa quem aparece na fotografia. O que realmente importa é que ela aconteça, que seja bem executada e que cumpra sua finalidade: servir ao povo.