Depois de meses de pressão causada pela oferta restrita e pelos preços elevados, o mercado internacional de café entra no terceiro trimestre de 2026 com perspectivas mais favoráveis de abastecimento. A principal razão é a chegada da safra brasileira 2026/27, que deve atingir um volume recorde e ampliar a disponibilidade do produto no mercado global.
Apesar desse cenário, a expectativa de fortalecimento do El Niño mantém produtores, exportadores e investidores atentos. A evolução do fenômeno climático poderá influenciar a próxima safra e voltar a mexer com as cotações ainda neste ano.
A avaliação integra a 36ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities, elaborado pela StoneX.
Produção brasileira deve impulsionar oferta mundial
A consultoria estima que o Brasil colherá 75,3 milhões de sacas na safra 2026/27, crescimento de 20,8% em relação ao ciclo anterior. Desse total, são esperadas 50,2 milhões de sacas de café arábica e 25,1 milhões de sacas de robusta, resultado que coloca o país entre os maiores produtores de sua história.
Com esse desempenho, a StoneX projeta um excedente global próximo de 10 milhões de sacas, cenário que tende a reduzir a escassez observada nos últimos anos.
Segundo Leonardo Rossetti, especialista de Inteligência de Mercado da StoneX, a entrada da nova safra deve aumentar o volume disponível para exportação.
"A partir de julho e, principalmente, de agosto, volumes mais expressivos da nova safra brasileira devem chegar ao mercado internacional. Isso tende a reduzir o aperto observado nos últimos anos e aliviar a pressão sobre os diferenciais de exportação."
Queda dos preços não elimina riscos
O aumento da produção já começou a influenciar as bolsas internacionais. Durante o segundo trimestre, os contratos futuros registraram forte recuo, levando o café arábica aos menores preços em cerca de um ano e meio, enquanto o robusta atingiu o menor patamar em quase um ano.
Ainda assim, o mercado continua sensível a fatores que possam afetar a oferta física.
No Brasil, a colheita avançou em ritmo mais lento em alguns momentos devido às condições climáticas. Ao mesmo tempo, produtores reduziram o ritmo de comercialização e os estoques certificados da ICE continuaram em queda, fatores que ajudaram a sustentar parte das cotações.
"O segundo trimestre foi marcado por uma mudança importante na percepção do mercado. As atenções começaram a migrar de um cenário de escassez para uma realidade de oferta mais confortável, mas ainda existem fatores que podem gerar volatilidade, especialmente relacionados ao fluxo físico da commodity e ao clima", afirma Rossetti.
Vietnã também deve ampliar produção
Além do Brasil, o Vietnã, maior produtor mundial de café robusta, também deverá aumentar sua oferta na temporada 2026/27.
Segundo estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o país asiático deve produzir cerca de 32,5 milhões de sacas, movimento favorecido pela retomada das vendas após dois anos de retenção de estoques estimulada pelos preços elevados.
Ao mesmo tempo, o consumo mundial segue aquecido. A StoneX destaca que mercados consumidores continuam absorvendo o produto, mesmo após o ciclo recente de altas, com destaque para o próprio Vietnã, que deverá registrar consumo interno recorde impulsionado pelo crescimento econômico e pela expansão das cafeterias.
El Niño volta ao centro das atenções
Embora o mercado enxergue um cenário mais confortável para os próximos meses, a consultoria alerta que o clima poderá voltar a determinar o comportamento dos preços.
Os modelos climáticos indicam probabilidade superior a 80% de permanência do El Niño durante o segundo semestre, com possibilidade de intensificação até o fim do ano.
No Brasil, o comportamento das chuvas entre setembro e outubro será decisivo para a florada da safra 2027/28. Caso o fenômeno provoque períodos prolongados de calor e déficit hídrico, a produção poderá ser afetada.
O mesmo risco existe em importantes áreas produtoras do Sudeste Asiático, especialmente no Vietnã e na Indonésia.
"O final do terceiro trimestre tende a marcar uma mudança de foco do mercado. Se hoje as discussões estão concentradas no aumento da oferta, nos próximos meses as preocupações podem migrar para os impactos do El Niño sobre a próxima safra", avalia Rossetti.
Segundo a StoneX, se o fenômeno persistir com intensidade elevada em 2027, o mercado poderá voltar a incorporar um prêmio climático aos preços do café, elevando novamente a volatilidade das cotações internacionais.