O mercado do milho chega à reta final da segunda safra em Mato Grosso do Sul sob uma combinação que pode dar mais sustentação às cotações. Enquanto o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) reduziu as estimativas de produtividade e estoques norte-americanos para o ciclo 2026/27, o estado deve colher menos milho nesta temporada, mesmo tendo ampliado a área plantada.
A leitura consta no relatório WASDE de agosto, divulgado no dia 12, e nos dados mais recentes do Projeto SIGA-MS e da Aprosoja/MS. Para o produtor sul-mato-grossense, o cenário externo se junta a uma oferta estadual menor e a uma demanda interna crescente, fatores que tornam a estratégia de comercialização especialmente relevante neste momento.
Menos milho disponível nos Estados Unidos
O USDA revisou para baixo a produtividade esperada do milho norte-americano, passando de 183 para 180,7 sacas por acre entre julho e agosto. Ao mesmo tempo, a previsão de exportações aumentou de 3,2 bilhões para 3,275 bilhões de bushels.
Com uma produção estimada menor e exportações maiores, os estoques finais projetados para os Estados Unidos recuaram de 1,790 bilhão para 1,653 bilhão de bushels. O preço médio recebido pelos produtores também subiu na projeção do órgão, de US$ 4,40 para US$ 4,50 por bushel.
No balanço mundial, a redução foi mais discreta: a estimativa de estoque final passou de 275,26 milhões para 274,66 milhões de toneladas.
O Brasil também aparece com uma projeção menor de estoques finais. Para a safra 2026/27, o USDA reduziu a estimativa de 11,10 milhões para 10,10 milhões de toneladas.
Safra menor mesmo com área maior em MS
No campo sul-mato-grossense, os números apontam para uma situação semelhante do ponto de vista da oferta, mas por razões diferentes.
A segunda safra de milho 2025/26 ocupa aproximadamente 2,206 milhões de hectares, área 3% maior que a registrada no ciclo anterior. A produtividade, porém, é estimada em 84,2 sacas por hectare, uma redução de 22,4%.
O resultado é uma produção projetada em 11,139 milhões de toneladas, volume 20,1% inferior ao obtido na safra passada.
A colheita também não avançou no mesmo ritmo do ano anterior. No levantamento realizado em 11 de agosto, o SIGA-MS apontava que metade da área monitorada já havia sido colhida, percentual 6,4 pontos abaixo do registrado na mesma época de 2025.
Chuvas irregulares, ventos fortes e episódios localizados de granizo continuam entre os fatores observados na reta final dos trabalhos.
Aprosoja/MS vê espaço para sustentação
Para Raphael Gimenes, analista de Economia da Aprosoja/MS, a combinação entre a redução dos estoques internacionais e a menor produção estadual cria um ambiente que pode favorecer a sustentação das cotações.
“O que temos neste momento é uma combinação de fatores que tende a dar sustentação ao mercado do milho. De um lado, o USDA reduziu os estoques projetados nos Estados Unidos e no mercado mundial. Do outro, Mato Grosso do Sul deve colher uma safra menor, enquanto a colheita ainda está em andamento. Isso não significa que os preços necessariamente vão subir, mas cria um ambiente mais favorável para a sustentação das cotações e reforça a importância de o produtor acompanhar o mercado antes de definir suas estratégias de venda.”
A avaliação, portanto, não aponta uma alta garantida dos preços. O cenário apresentado é de maior sustentação, em um momento no qual o produtor ainda precisa lidar com a definição do ritmo de colheita e com as condições para armazenar ou comercializar a produção.
Etanol amplia disputa pelo milho
A demanda interna é outro componente importante para o mercado estadual. A expansão da indústria de etanol produzido a partir do milho aumenta a disputa pela matéria-prima que também pode seguir para exportação.
Ao mesmo tempo, Mato Grosso do Sul convive com um déficit estrutural de armazenagem, o que acrescenta uma variável à decisão de venda justamente durante a concentração da oferta provocada pela colheita.
Por isso, a análise de comercialização não depende apenas da cotação internacional. O produtor precisa considerar a disponibilidade de armazéns na região, o comportamento da demanda das indústrias, o ritmo da colheita e as condições logísticas.
Soja tem quadro menos pressionado
O mercado da soja apresenta uma configuração diferente. No relatório de agosto, o USDA manteve em 186 milhões de toneladas a estimativa para a produção brasileira na safra 2026/27 e em 118 milhões de toneladas a previsão de exportações.
Nos Estados Unidos, a projeção de produção subiu de 4,475 bilhões para 4,519 bilhões de bushels. Parte desse volume adicional, contudo, tende a ser absorvida pelo aumento previsto no esmagamento.
Em Mato Grosso do Sul, a safra 2025/26 terminou com 16,744 milhões de toneladas de soja, crescimento de 19,1% sobre o ciclo anterior. A produtividade média chegou a 60,40 sacas por hectare, alta de 16,6%.
Na avaliação da Aprosoja/MS, sem uma quebra de oferta no mercado internacional, brasileiro ou estadual, fatores como câmbio, frete e ritmo das compras externas devem ter papel importante na formação dos preços no curto prazo. Entre os mercados consumidores, a China permanece como referência para o comportamento das exportações.
O próximo relatório WASDE está previsto para 11 de setembro. Até lá, o acompanhamento da Aprosoja/MS e do Projeto SIGA-MS deve trazer novas informações sobre o avanço e o encerramento da colheita do milho em Mato Grosso do Sul.