O endividamento avança em diferentes setores da economia de Mato Grosso do Sul. Em julho, 136,6 mil empresas estavam inadimplentes no Estado, com um estoque de R$ 4,09 bilhões em dívidas. Os dados da Serasa Experian mostram que, em um ano, o número de CNPJs nessa situação cresceu 25,7%, enquanto o volume dos débitos aumentou 45%.

A pressão financeira também aparece no campo e entre os consumidores. Levantamento da Aprosoja-MS indica que 27,6% dos financiamentos rurais eram considerados problemáticos em agosto, praticamente o dobro do percentual registrado 18 meses antes. Já entre as pessoas físicas, o índice de inadimplência chegou a 60,86% em Mato Grosso do Sul, segundo a Serasa.

Dívida média das empresas passa de R$ 29 mil

Com 136,6 mil empresas inadimplentes, Mato Grosso do Sul representa cerca de 1,5% do total registrado no país e aparece na 16ª posição entre os estados em número de CNPJs nessa condição.

O valor médio devido por empresa também aumentou. Em julho deste ano, cada CNPJ inadimplente acumulava, em média, R$ 29.943,06, contra R$ 25.962,53 no mesmo período de 2025. A diferença corresponde a uma alta de 15,3%.

Para o economista e diretor de Projetos da Agricon Consultoria, Fábio Ferreira Júnior, o quadro não se limita às dificuldades financeiras enfrentadas individualmente por empresas e consumidores.

“Estamos vivendo um momento que exige atenção. Endividamento, inadimplência, custo elevado do crédito e redução da confiança acabam pressionando tanto a capacidade de consumo das famílias quanto a capacidade de investimento das empresas. Esse processo pode gerar um efeito econômico importante: quando famílias reduzem o consumo e empresas diminuem os investimentos, a demanda enfraquece, pressionando receitas, emprego e renda.”

Financiamentos rurais problemáticos quase dobram

No setor agropecuário, os dados levantados pela Aprosoja-MS em agosto mostram que 27,6% dos financiamentos dos produtores rurais eram classificados como problemáticos.

O percentual representa quase o dobro dos 13,9% registrados 18 meses antes, indicando uma piora nas condições financeiras de parte dos produtores.

Entre as famílias, o Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas da Serasa aponta que 60,86% estão inadimplentes no Estado. Os bancos e cartões de crédito concentram 28,32% das dívidas.

Na sequência aparecem financeiras, com 17,95%; contas de água, luz e gás, com 17,86%; e serviços, responsáveis por 14,09% dos débitos.

Recuperação judicial alcança 144 empresas

A dificuldade para manter as contas em dia também aparece no número de empresas que buscam a recuperação judicial para reorganizar suas finanças.

No segundo trimestre de 2026, Mato Grosso do Sul registrou índice de 3,2 no Indicador de Recuperação Judicial (IRJ), acima da média nacional, de 2,3.

Ao todo, 144 empresas estavam em recuperação judicial no Estado. As microempresas respondiam pela maior parcela, com 37,7% dos casos. Depois aparecem as médias empresas, com 29,8%, e as empresas de pequeno porte, com 25,4%.

Para Fábio Ferreira Júnior, as decisões financeiras precisam considerar a realidade de cada negócio, especialmente em um ambiente de crédito mais restrito.

“Nem toda empresa ou produtor enfrenta a mesma realidade. Mais do que simplesmente buscar crédito, é fundamental avaliar a capacidade de pagamento, o fluxo de caixa, o mercado de atuação e a finalidade do recurso. Em um cenário de maior restrição financeira, decisões econômicas bem estruturadas podem ser determinantes para preservar a saúde financeira e criar condições para a retomada dos investimentos.”

Juros altos pressionam consumo e investimentos

Na avaliação da Agricon, a manutenção da Selic em nível elevado, combinada com a inadimplência e a menor confiança do consumidor, limita o poder de compra das famílias e pode reduzir a demanda por produtos e serviços.

O cenário também cria dificuldades para empresas que precisam decidir entre preservar caixa, renegociar compromissos ou manter investimentos.

“É preciso cautela, planejamento e uma análise individualizada. Para algumas empresas, a prioridade pode ser reorganizar dívidas e preservar caixa; para outras, pode ser necessário investir para ganhar produtividade. O importante é entender a realidade financeira do negócio antes de tomar novas decisões de crédito ou investimento”, afirma o economista.

Com informações AsseCom