Sobre a vida

Sobre a vida

Eu já quis ser tanta coisa na vida! Lembro de uma época em que queria dançar e minha mãe me colocou para fazer ballet na escola. De cara vi que aquele tal de plié não era pra mim. Mudamos para o Jazz. Eu era muito criança, cinco ou seis anos. Me lembro que me divertia muito, no melhor embalo Flash Dance, só que ainda não era aquilo. Fui parar num curso de dança gaúcha, totalmente dedicado às raízes paternas. Dançava vanerão, xote e rancheira com meu pai. Meus tios e meu avô adoravam, morriam de rir. Devia ser muito engraçado e eu me achava. Mas também não segui adiante com aquilo. Depois, já na adolescência, tive meu tempo de atleta. Jogava handebol na escola, passava horas dedicadas àquele treinamento e jogos de interclasse, sem fim. Tinha espírito de liderança, suar me deixava viva, cheia de energia. Eu amava aquelas competições. Mais tarde, o handebol foi substituído pelo futebol. Me metia em tudo. Certa vez, fui acompanhar os jogos de futsal dos meninos no ginásio da escola. Insisti tanto para jogar, mas me sobrou apenas o cargo de árbitro e cabide de relógios. Apito na boca, braços lotados de relógios enquanto os moleques jogavam. Corre, corre, apita daqui, briga de lá. Corre de frente, corre de lado, corre, corre, apita de novo, berra. Até que um belo tombo de cotovelo no chão me tirou da partida. Resultado: Um trincadinho de nada que me colocou momentaneamente fora da quadra. Depois me arrisquei no futebol de campo, nos campinhos do bairro quando meu irmão me deixava entrar, nas peladas de campo de areia, enfim! Mas não, a sina não era virar uma jogadora de futebol. Tentei outras coisas e na escola, cheguei a escrever uma peça de teatro, já que não tinha sido chamada para compor a equipe de atrizes mirins, mas era tão tonta que uma colega roubou meu roteiro e falou que era dela. Foi a peça de maior sucesso nas apresentações de fim de ano do colégio e eu fiquei lá, remoendo a dor de não ter sido forte o bastante para dar um “chega pra lá” nela e contar pra todo mundo que era uma impostora. Demorei muito a superar esse trauma. Já no antigo “ginásio”, às portas do vestibular, e ainda sem saber que faculdade cursar, montei o jornal da escola: Tempos Decisivos! Até parece nome de livro, né? Decisivo era o nome da escola e eu sequer imaginava que decidir algo poderia ser tão difícil. Isso quando, na verdade, já estava tudo decidido, mas não por mim, se é que você me entende. Prestei vestibular para Comunicação Social e fui aprovada em uma universidade particular, para o desespero do meu pai. Queria fazer publicidade e propaganda. Me achava tão curiosa, criativa, intuitiva. Mas acabei apaixonada, já no primeiro ano do curso de comunicação. Fui seduzida pelas histórias do jornalista Rubens Valente, pelos fins de noite no Parks Burguer, pelas letras de MPB, pelas poesias que lia e pelas que eu mesma escrevia. Apaixonada! Lembro de ter chegado no portão da casa dos meus avós e do meu avô chorando de emoção quando eu disse que seria jornalista, assim como ele foi no tempo dele. O Jornalismo tinha feito mais um refém. A gente nunca mais é o mesmo depois de passar por ele. Bom, eu não fui! Na faculdade, tive meus momentos (influenciados) pela esquerda e por seus seguidores alucinados por Che Guevara e sua tradicional foto de charuto, barba e boina. Em outros momentos, me vi engajada em causas que nem eram minhas. Provocava discussões, depois corria delas porque nunca soube lidar muito bem com a razão, mas gostava de assistir aos debates regados a cerveja gelada depois da aula, no barzinho da frente. No fim das contas percebi o quanto era iludida com discursos marxistas, socialistas e o escambau. Na verdade, eu queria mesmo era ouvir o som que tocava no fundo, queria compor minhas letras, queria, sim, acabar com a desigualdade social e com a pobreza, mas como não via saída para isso e estava acomodada ali no meu mundinho classe média, preferia sonhar com uma carreira compondo letras, já que não levava o menor jeito para o canto ou instrumentos, menos ainda para a política. “Quem sabe ainda sou uma garotinha, esperando o ônibus da escola, sozinha”. Tive amores, desamores, afetos, desafetos, tive amigos, perdi amigos, tinha os sonhos reluzindo nos olhos, queria viajar, curtir o carnaval, morar fora do país, aprender um novo idioma, fazer tatuagens, furar um piercing. Quando chegava a hora de dividir os grupos por editorias no jornal da faculdade, eu sempre queria o caderno de Cultura. Fugia de política, polícia ou qualquer outro assunto que me parecesse sério demais. Não que música e poesia não fossem sérios, não! Eram tão sérios que eu os preferia para a vida. Queria viver da minha arte! E acabava sempre comendo miojo no fim da noite, quando saía da faculdade. “Os anos se passaram enquanto eu dormia” Ser jovem tem suas vantagens e confesso, muitas e muitas vezes pensei em como seria voltar no tempo. Viver de novo todo aquele furor, aquela festa que era viver a vida aos porres (e nem estou falando do álcool). Mas hoje, olhando para trás, analisando friamente minhas passagens, digo que sou feliz por ter feito tudo o que fiz. Arrependimentos? Sim, tenho alguns, mas nada que não tenha deixado lições incríveis e maravilhosas para a vida. É como se estivesse realmente dormindo, porque quando a gente é jovem, tem a mania de achar que sabe tudo, mas a gente descobre, da pior forma possível, que não sabemos nada. Quando você acorda, tem mais de quarenta anos com lembranças tão vivas como se fosse ontem. A gente tem é que saber administrar isso tudo, aceitar os benefícios que o tempo nos deixou – e não foram poucos – e seguir. Claro que tudo muda em vinte anos. Eu não sou mais aquela garotinha, esperando o