Há histórias que parecem ter esperado uma vida inteira para serem contadas. A de José Carlos Thimoteo Lobreiro, aos 75 anos, é uma delas. Médico-veterinário, pesquisador, músico, viajante e terapeuta, ele passou por universidades, países, instrumentos musicais e diferentes caminhos de busca pessoal. Agora, essa trajetória ganha personagens, bosques encantados e perguntas sobre a existência em “Vila DuZé: o Santuário das Almas Entrelaçadas”.

É também nesse momento que Thimoteo passa a se apresentar como Zé Lobreiro. O novo nome artístico preserva o sobrenome de sua família e dá identidade ao escritor que nasce depois de uma trajetória marcada pela inquietude e pela vontade de compreender um pouco mais sobre a vida.

O lançamento do livro ocorre em 16 de setembro, quarta-feira, às 20h, na Estação Cultural Teatro do Mundo, em Campo Grande. A entrada será gratuita e a noite terá música ao vivo, incluindo uma apresentação do próprio autor.

Uma vila construída de memórias e perguntas

Com mais de 100 páginas, “Vila DuZé” acompanha moradores de uma espécie de território imaginário onde espiritualidade, ciência, filosofia e experiências humanas se encontram. Entre eles estão Zezé Rezadeira, Dr. Lumíolo Waves e Analuz Vida, três personagens que aparecem na própria capa da obra.

A narrativa parte de um lugar cercado por bosques encantados, árvores que guardam segredos e um mel que, na história, tem o poder de curar a alma. Mais do que conduzir o leitor por uma aventura, Zé Lobreiro utiliza seus personagens para apresentar percepções e questionamentos que também fazem parte de sua própria trajetória.

Zezé Rezadeira carrega o aspecto místico dessa construção. Suas preces aproximam o mundo visível do invisível e remetem à relação do autor com os antepassados.

“Nem todos os nossos antepassados a gente conheceu, tampouco sabemos o nome, mas a nossa existência só foi possível graças a eles. Eu, pessoalmente falando, escolho um de cada para saudar cada um dos meus antepassados, para fazer um agradecimento, uma reverência. Isso é em sinal de respeito com a minha árvore genealógica”, conta.

Dr. Lumíolo Waves vem de outro universo. Cientista apaixonado pelo sistema límbico do cérebro, pelas glândulas e pelos neurotransmissores, ele deixa a universidade em busca de algo que a ciência, sozinha, não parece conseguir explicar. É assim que chega à Vila DuZé.

O personagem também atravessa uma experiência fora do corpo depois de entrar em coma e retorna ainda mais impressionado com aquilo que a obra chama de tríade luminosa.

Já Analuz Vida percorre outro caminho. Aos cerca de 60 anos, ela é uma viajante movida pela curiosidade e pelo interesse no budismo. Viaja pelo mundo em busca dos ensinamentos de Buda e acaba descobrindo que algumas respostas não estão necessariamente nos lugares visitados, mas dentro de si.

Na mistura desses personagens, o livro aproxima realismo mágico, filosofia oriental e neurociência para levantar questões que acompanham o autor desde muito cedo: quem somos, de onde viemos e para onde vamos.

Antes da Vila DuZé, uma vida de muitos caminhos

A história de Zé Lobreiro começou longe de Campo Grande. Nascido em Salto Grande, no interior de São Paulo, José Carlos Thimoteo chegou à Capital sul-mato-grossense em 1973.

Foi em Campo Grande que cursou Medicina Veterinária e construiu uma carreira acadêmica de mais de uma década na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Também passou pelos Estados Unidos, onde fez mestrado, e pela Itália, onde realizou uma especialização.

Na medicina veterinária, foram mais de 40 anos de trajetória. Em determinado momento, porém, a busca por conhecimento tomou outras direções. Thimoteo passou a viajar para a Índia e, durante uma década, fez o caminho de ida e volta entre diferentes mundos, experiências e formas de compreender a existência.

Nesse período, também atuou como terapeuta, trabalhando com massagem, meditação, alimentação saudável e práticas da medicina chinesa.

A inquietude que aparece agora nos personagens do livro já fazia parte de sua vida.

O menino que batucava na lata de bolacha

A música, por sua vez, chegou muito antes da carreira acadêmica.

Thimoteo conta que aos três anos já demonstrava interesse pelos sons. Na cozinha de casa, enquanto ouvia rádio, transformava uma lata de bolacha em instrumento improvisado.

“Naquele tempo eu ficava na cozinha escutando o rádio no programa A Lira do Xopotó, da Rádio Nacional, e ficava batucando na lata de bolacha enquanto escutava as músicas”, lembra.

Anos depois, a brincadeira de infância se transformaria em uma trajetória musical. Ele integrou o Grupo Regional de Choro Agemaduomi, conhecido pelas apresentações de choro e samba no início dos anos 2000.

O grupo também participou de manifestações e apresentações voltadas à conscientização ecológica. Entre elas esteve o “Show pela Natureza”, realizado em 2006, em Campo Grande, contra a destruição de reservas ambientais urbanas.

A circulação pela cena cultural da cidade também deixou marcas. Thimoteo relembra a amizade com a professora Maria da Glória Sá Rosa, a proximidade com Albana Xavier, a admiração pelo professor Hildebrando Campestrini e as amizades com Américo Calheiros e Jair Damasceno.

Também participou da Orquestra Clássica do maestro Diniz e do Madeira e Metais, sob regência do maestro Tarcizio.

“A cena cultural era bem rica, eu circulava com esse pessoal”, recorda.

Quando a experiência vira literatura

É desse acúmulo de caminhos que surge Zé Lobreiro.

A decisão de escrever veio acompanhada de uma percepção sobre o próprio tempo. Ao olhar para a trajetória que construiu, o autor quis transformar experiências, pensamentos e crenças em algo que pudesse compartilhar com outras pessoas.

“Devido a minha inquietude, de querer e viver sempre mais, hoje posso compartilhar de várias reflexões, claro que para aqueles que já se interessam por isso”, afirma.

Por isso, “Vila DuZé” se aproxima de uma autobiografia sem assumir o formato tradicional de memórias. Em vez de contar diretamente a própria vida, Lobreiro distribui suas experiências entre personagens que funcionam, segundo ele, quase como arquétipos de diferentes dimensões do ser humano.

“Tudo o que está no livro, de alguma forma, são minhas experiências de vida ou algo em que eu acredito. Apresento os personagens quase como se fossem arquétipos do meu eu, do ser humano. E trago questionamentos. Onde estamos? o que estamos fazendo aqui? de onde viemos? Esses questionamentos eu tive desde pequeno, é quase como um estímulo para a reflexão conjunta”, afirma.

O projeto, aliás, pode não terminar nas páginas do livro. O autor já imagina a história em outros formatos e gostaria de transformá-la em uma peça de teatro ou em um produto audiovisual.

O nome que permanece

A escolha por Zé Lobreiro também carrega uma história familiar.

Lobreiro é o último sobrenome da família que ele carrega. Como não teve filhos por escolha pessoal, decidiu preservar o nome de outra maneira: levando-o para sua produção artística.

Assim, o homem que durante décadas foi conhecido como Thimoteo chega agora a uma nova etapa de sua trajetória. A ciência, a música, as viagens, a espiritualidade e as experiências acumuladas ao longo de 75 anos encontram morada em uma vila imaginária.

E é justamente ali, entre personagens que procuram respostas e um autor que prefere transformar perguntas em caminhos, que nasce a Vila DuZé.

Para Fernando Lopes Lima, diretor da Estação Cultural Teatro do Mundo, o lançamento representa também uma oportunidade de aproximar o público de uma faceta ainda pouco conhecida do artista.

“Ele é um artista que eu conheço muito bem como músico e agora vou conhecer como escritor. É uma pessoa inquieta, pensante, interessante e que tem muito para contribuir com a literatura. Já a Estação Cultural Teatro do Mundo é um ambiente que é para agregar o artista ao seu público, juntar artistas e gente interessada em literatura, cinema, teatro, música e poesia”, afirma.

Serviço
Lançamento de “Vila DuZé: o Santuário das Almas Entrelaçadas”

Data: 16 de setembro, quarta-feira
Horário: 20h
Local: Estação Cultural Teatro do Mundo, em Campo Grande
Entrada: gratuita