O governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (Progressistas), defendeu a união das forças de direita no segundo turno das eleições presidenciais, criticou o atual modelo político brasileiro e cobrou uma agenda nacional voltada ao equilíbrio fiscal, à competitividade e às reformas estruturais. As declarações foram dadas em entrevista à revista Veja, a pouco mais de dois meses das eleições. 

Candidato à reeleição após ser aprovado em convenção partidária, Riedel afirmou que a fragmentação existente entre os grupos de direita tende a diminuir ao longo da disputa. Ele citou a própria articulação política construída em Mato Grosso do Sul como exemplo de convergência entre diferentes legendas.

Segundo o governador, a aproximação ocorreu a partir dos resultados apresentados pela administração estadual. “Quando se entregam resultados, as forças políticas tendem a convergir em torno do projeto”, afirmou. 

Apoio a Flávio Bolsonaro

Apesar de manter relações políticas com nomes como Ronaldo Caiado e Romeu Zema, Riedel optou por apoiar o senador Flávio Bolsonaro (PL) na corrida presidencial. De acordo com o governador, a decisão foi tomada durante o período de convenções e acompanhou a composição política formada em Mato Grosso do Sul. 

Riedel avalia que a divisão entre candidaturas de direita no primeiro turno não deve permanecer na etapa seguinte da eleição.

“Acredito que no segundo turno haverá uma reunião natural em torno de uma candidatura única desse campo”, declarou. 

Ao comentar as investigações envolvendo o Banco Master e possíveis consequências políticas para nomes como Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, o governador defendeu que eventuais responsabilidades sejam apuradas individualmente pelas instituições.

“As instituições e os partidos estão acima das pessoas”, afirmou. 

Críticas ao modelo econômico do PT

Embora esteja eleitoralmente alinhado à direita, Riedel rejeita a definição de antipetista. “Não gosto dessa definição. Não sou do ‘anti’”, disse à Veja. 

O governador reconheceu o papel histórico do PT na política brasileira, mas afirmou haver divergências profundas em relação ao modelo de Estado e à condução econômica adotada pela legenda.

Para Riedel, “a agenda econômica defendida pelo PT envelheceu”. Na avaliação dele, o país precisa atualizar sua estratégia diante das transformações da economia internacional e da estrutura produtiva. 

A crítica alcança também o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Riedel considera que a administração federal está concentrada demais em questões imediatas e defende uma visão de longo prazo.

“Precisamos pensar menos em agendas de governo e mais em agendas de Estado”, afirmou. 

Ele também questionou o peso das disputas ideológicas na discussão nacional. “O Brasil ficou muito capturado pelas narrativas políticas e ideológicas dos últimos anos. Eu sinto falta de uma discussão mais profunda sobre reformas estruturantes”, declarou. 

Menos partidos e fim da reeleição

A reforma política aparece entre as propostas defendidas pelo governador. Riedel considera excessivo o número de partidos existentes no país e avalia que a fragmentação dificulta a construção de projetos políticos mais definidos.

“Não faz sentido imaginar que existam mais de trinta projetos ideológicos diferentes convivendo ao mesmo tempo”, disse. 

Entre as mudanças sugeridas estão o fim da reeleição para cargos do Executivo, a adoção de mandatos únicos de cinco anos e a realização simultânea das eleições municipais e nacionais.

Na avaliação de Riedel, o calendário atual mantém o país em sucessivas disputas eleitorais. “A cada dois anos, o país interrompe suas agendas para discutir eleições. Não considero isso saudável para a sociedade nem para a administração pública”, afirmou. 

Investimento privado e relações comerciais

Ex-produtor rural, Riedel também abordou na entrevista a relação entre poder público e setor produtivo. Para ele, mais do que direcionar a discussão exclusivamente ao agronegócio, o país precisa criar condições de estabilidade e previsibilidade para estimular investimentos privados.

O governador avaliou positivamente concessões e parcerias com a iniciativa privada realizadas durante o governo Lula, inclusive em projetos ligados a Mato Grosso do Sul. Ao mesmo tempo, apontou uma contradição entre essas medidas e setores políticos que tradicionalmente se posicionam contra privatizações. 

Na política comercial, Riedel criticou a condução das negociações com os Estados Unidos durante o chamado tarifaço. Para ele, houve “excesso de narrativas e pouca objetividade”.

“Bravatas funcionam em palanque, mas não resolvem problemas comerciais”, afirmou. 

Segurança de MS como questão nacional

A posição de Mato Grosso do Sul na fronteira também ocupou espaço na entrevista. Com mais de 1,5 mil quilômetros de fronteira internacional, o Estado, segundo Riedel, enfrenta uma situação que não pode ser tratada exclusivamente como responsabilidade estadual.

O governador apontou investimento, inteligência e integração entre União, estados e municípios como pilares para combater o tráfico e as organizações criminosas. Ele citou operações conjuntas do Departamento de Operações de Fronteira (DOF), Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal. 

Riedel mencionou ainda uma taxa de encarceramento de 700 presos para cada 100 mil habitantes em Mato Grosso do Sul e relacionou parte dessa pressão sobre o sistema prisional às prisões ligadas ao tráfico internacional.

“Isso demonstra que o combate às facções deixou de ser um problema regional. É um problema nacional e internacional”, afirmou. 

O governador também declarou que organizações criminosas ampliaram sua capacidade financeira e atuação internacional, ocupando espaços em áreas onde o Estado não consegue estar presente.

“Quando uma organização criminosa substitui o Estado em determinado território, ela passa a impor regras próprias, controlar comunidades e interferir diretamente na vida das pessoas. Isso é extremamente grave”, declarou. 

Maioridade penal e prevenção

Riedel se posicionou favoravelmente à discussão sobre a redução da maioridade penal, mas ponderou que uma mudança legislativa isolada não resolveria a violência envolvendo adolescentes e jovens.

A proposta, segundo ele, deveria ser acompanhada de educação, qualificação profissional, oportunidades de trabalho e políticas de prevenção capazes de evitar a aproximação com o crime organizado.

“Se o Estado não ocupar esse espaço, alguém vai ocupar. E, muitas vezes, quem ocupa é o crime organizado”, afirmou. 

Rota Bioceânica na estratégia para MS

Para o futuro de Mato Grosso do Sul, Riedel apontou a diversificação econômica e a transformação logística como prioridades. A meta é ampliar a posição do Estado como polo logístico, industrial e de serviços.

Nesse cenário, a Rota Bioceânica é apresentada como uma das principais oportunidades. O corredor deverá conectar o Brasil ao Oceano Pacífico, criando uma alternativa para o escoamento da produção e aproximando empresas brasileiras de mercados asiáticos. 

O governador também relacionou a localização de Mato Grosso do Sul, entre Paraguai, Bolívia e diferentes regiões brasileiras, ao potencial de expansão das atividades de importação e exportação.

Ao falar sobre o legado que pretende deixar, Riedel associou crescimento econômico à responsabilidade fiscal, inclusão social e educação.

“Gostaria que fôssemos reconhecidos como um estado que cresceu sem abrir mão da responsabilidade fiscal, da inclusão social e da educação”, afirmou.