O envolvimento de estudantes brasileiros matriculados em cursos de Medicina no Paraguai em crimes de contrabando de medicamentos e tráfico de drogas tem chamado a atenção das forças de segurança em Mato Grosso do Sul. Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) apontam que, somente em 2026, 16 acadêmicos foram presos no estado durante ações de fiscalização nas rodovias federais. 

Segundo a corporação, 12 dessas prisões ocorreram por contrabando de medicamentos, enquanto outras quatro foram relacionadas ao transporte de entorpecentes. O aumento desse tipo de ocorrência levou a PRF a intensificar o monitoramento das rotas utilizadas na região de fronteira com o Paraguai. 

De acordo com o chefe da Delegacia Especializada de Fronteira da PRF em Dourados, inspetor Waldir Brasil Junior, o número de estudantes envolvidos nas ocorrências tem surpreendido os policiais. 

"Dá até a impressão, em alguns momentos, que cursar Medicina no Paraguai é um álibi para tentar burlar a fiscalização. Não podemos generalizar, mas a quantidade de pessoas cursando Medicina que foram presas com medicamentos e entorpecentes é surpreendente."

A corporação ressalta que os casos registrados não representam a totalidade dos estudantes brasileiros que frequentam instituições de ensino no país vizinho, mas refletem um crescimento das ocorrências envolvendo esse perfil de investigados.
 

Casos recentes envolveram drogas e medicamentos

 No fim de junho, um estudante de Medicina de 24 anos foi preso após tentar escapar de uma fiscalização da PRF na BR-463, em Ponta Porã. Segundo a polícia, ele conduzia um Chevrolet Classic carregado com 570 quilos de maconha. A perseguição terminou depois que policiais efetuaram disparos contra um dos pneus do veículo para impedir a fuga.
 
Durante o depoimento, o universitário informou que havia aceitado transportar a carga de drogas para quitar uma dívida com um agiota.
 
Em outra ocorrência, uma acadêmica de Medicina foi presa na BR-267, em Maracaju, transportando 134 caixas de medicamentos emagrecedores à base de tirzepatida. Ela viajava em um ônibus que fazia o trajeto entre Ponta Porã e Campo Grande.
 
A estudante declarou aos policiais que receberia R$ 100 por cada caixa transportada e que utilizaria o dinheiro para pagar a rematrícula e mensalidades em atraso da faculdade onde estuda, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Após audiência de custódia, ela obteve liberdade provisória mediante pagamento de fiança correspondente a dois salários mínimos.
 

BR-060 concentra maior volume de apreensões

 Levantamento da PRF mostra que a BR-060 é a rodovia com maior número de apreensões de canetas emagrecedoras neste ano em Mato Grosso do Sul. O trecho, que liga Ponta Porã a Campo Grande passando por Sidrolândia, registrou a apreensão de 3.744 unidades, o equivalente a 43,6% das 8.587 canetas recolhidas pela corporação em 2026.
 
Na sequência aparece a BR-163, onde foram apreendidas 2.289 unidades, correspondendo a 26,7% do total contabilizado pela PRF.
 

Polícia Federal também ampliou ações contra o contrabando

 
A Polícia Federal também intensificou as investigações relacionadas à entrada irregular desses medicamentos no estado. Entre janeiro e junho de 2026, a corporação apreendeu 12.048 canetas emagrecedoras em Mato Grosso do Sul durante as duas fases da Operação Emagrecimento Seguro.
 
As ações ocorreram em fevereiro e abril e tiveram como foco organizações suspeitas de importar clandestinamente medicamentos utilizados no tratamento de diabetes e emagrecimento para posterior comercialização ilegal no Brasil.
 
Na primeira fase da operação, foram cumpridos mandados em duas residências de Campo Grande. Em um dos imóveis, além da apreensão do telefone celular de uma investigada, um homem foi preso em flagrante por posse ilegal de arma de fogo.
 
Já na segunda etapa, a Polícia Federal concentrou as diligências em um edifício localizado na Avenida Afonso Pena, na Capital, apontado pelas investigações como um centro de distribuição dos medicamentos.
 
Segundo a PF, a proximidade de Mato Grosso do Sul com o Paraguai favorece o ingresso irregular desses produtos no país. As investigações indicam que os medicamentos são adquiridos no território paraguaio e revendidos ilegalmente no mercado brasileiro, muitas vezes em doses fracionadas, impulsionados pela procura crescente por tratamentos voltados ao emagrecimento.