Um amigo seguia para o trabalho,
como tantos fazem todas as manhãs.
O relógio ditava o ritmo da cidade,
os semáforos organizavam a pressa,
e Campo Grande despertava
em sua mais nobre paisagem.
Carros deslizavam pela avenida,
bicicletas cruzavam a ciclovia,
ônibus levavam sonhos e obrigações,
crianças corriam para a escola,
adultos para o escritório,
cada qual carregando sua própria urgência.
Mas, entre o concreto e o verde,
onde poucos ousam repousar o olhar,
havia um homem.
Maltrapilho.
Sem o brilho das vitrines,
sem o conforto dos edifícios ao redor,
sem a pressa dos que acreditam não ter tempo.
Estava deitado na grama.
Nas mãos, não havia um copo estendido,
nem um pedido de esmola.
Havia um livro didático.
E seus olhos percorriam as páginas
como quem procura muito mais
que palavras impressas.
Ao seu lado, um livro lançado ao chão,
talvez já lido, talvez aguardando outro capítulo.
E, como se a natureza entendesse aquilo
que os homens esqueceram de compreender,
duas pequenas pombinhas permaneciam próximas.
Não fugiam.
Pareciam companheiras silenciosas,
testemunhas daquela cena
que a cidade apressada não viu.
Enquanto milhares passavam sem notar,
aquele homem encontrava riqueza
onde muitos perderam o hábito de procurar:
na leitura.
No silêncio.
Na reflexão.
É curioso...
Vivemos cercados por telas, notificações e compromissos.
Temos acesso a bibliotecas inteiras no bolso,
mas falta-nos tempo para abrir um livro.
Falta-nos tempo para conversar com o nosso próprio coração.
Falta-nos tempo para ouvir o silêncio.
E, talvez o mais triste,
falta-nos tempo para enxergar quem caminha ao nosso lado.
A sociedade corre.
Corre para produzir.
Corre para vencer.
Corre para conquistar.
Mas, nessa corrida,
quantas vezes passamos por alguém
sem sequer perceber sua existência?
Quantas histórias deixamos para trás
porque nossos olhos estavam presos ao relógio?
Aquele homem, que muitos chamariam apenas de morador de rua,
naquele instante era um leitor.
Era um estudante da vida.
Era alguém lembrando, sem dizer uma palavra,
que o conhecimento não escolhe endereço,
não exige roupa elegante,
nem depende da condição financeira.
O saber continua sendo um dos poucos tesouros
que ninguém consegue roubar.
Talvez a maior pobreza
não seja a falta de dinheiro.
Talvez seja a incapacidade
de parar por alguns minutos,
abrir um livro,
alimentar a alma
e perceber que ao nosso redor existem pessoas,
histórias, dores e esperanças
pedindo apenas um olhar mais humano.
Naquela manhã, meu amigo não encontrou apenas um homem lendo.
Encontrou uma lição.
E voltou para o trabalho compreendendo que a cidade não é feita apenas de avenidas, edifícios e automóveis.
Ela é feita de pessoas.
Pessoas que precisam ser vistas.
Pessoas que precisam ser respeitadas.
Pessoas que, muitas vezes, mesmo sem possuir quase nada, ainda nos ensinam aquilo que estamos esquecendo:
que ler é crescer, que refletir é viver, e que a verdadeira grandeza de uma sociedade começa quando aprendemos a enxergar o nosso semelhante antes de seguir adiante.
O Homem, o Livro e as Duas Pombinhas
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