“Normalmente, mulheres são mais desatentas a horários. O nosso desejo é atender todos os pacientes.” A mensagem foi enviada durante uma conversa pelo WhatsApp para o agendamento de uma consulta em um consultório odontológico de Campo Grande. Incrédula, a jornalista Vivianne Nunes decidiu questionar o posicionamento do profissional, cancelar o atendimento e compartilhar o episódio em suas redes sociais.

A publicação rapidamente provocou a manifestação de outras mulheres, que classificaram o comentário como preconceituoso, desrespeitoso e incompatível com uma relação profissional baseada na cordialidade e no respeito.

Para a jornalista, a mensagem não representava apenas uma observação sobre atrasos, mas a reprodução de um estereótipo que atribui às mulheres, de maneira generalizada, características como desatenção, desorganização ou falta de responsabilidade.

“Eu disse que não estava de acordo com o posicionamento do profissional, que a mensagem era desnecessária, agradeci e pedi que desmarcasse a consulta. Me senti ofendida e desrespeitada. É incrível que nós, mulheres, que já temos nosso espaço consolidado no mercado de trabalho e na vida social, a duras penas, ainda estejamos sujeitas a esse tipo de comportamento. Eu não aceito ser rotulada”, afirmou.

Preconceito disfarçado de opinião

Nem sempre a misoginia se manifesta por meio de uma agressão explícita. Ela também pode aparecer em comentários, piadas, comparações e generalizações que diminuem ou desqualificam mulheres apenas por serem mulheres.

A afirmação de que elas seriam naturalmente mais desatentas aos horários transforma uma possível experiência individual do profissional em uma característica atribuída a todo o gênero feminino. O problema não está em cobrar pontualidade, mas em estabelecer um padrão de comportamento baseado exclusivamente no gênero dos pacientes.

O próprio Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, instituído pelo Governo Federal, estabelece entre suas ações preventivas a necessidade de eliminar estereótipos de gênero e promover uma cultura de respeito e de não tolerância à discriminação e à misoginia.

Pedido de desculpas não encerrou o debate

Após ser questionado, o profissional pediu desculpas, mas justificou que a afirmação estaria relacionada à “realidade da rotina que vivenciamos no dia a dia”. A explicação, entretanto, não foi suficiente para encerrar o desconforto.

Durante a conversa, Vivianne argumentou que utilizar acontecimentos recorrentes para generalizar um grupo inteiro poderia levar a conclusões igualmente ofensivas. Ela questionou se, pela mesma lógica, seria razoável afirmar que todos os homens são agressores simplesmente porque agressões contra mulheres também fazem parte da realidade cotidiana.

Ao final, recebeu novamente um breve pedido de desculpas.

Publicação gerou indignação entre mulheres

Depois que os registros da conversa foram publicados em sua rede social, a jornalista recebeu diversas mensagens, principalmente de mulheres que queriam saber o nome do profissional e do consultório.

“Já me fala onde é para eu não marcar lá”, escreveu uma seguidora por mensagem privada.

“É sério isso?”, questionou outra.

“Gente, que absurdo é esse?”, comentou uma internauta.

Outra seguidora afirmou esperar que o posicionamento da jornalista provoque no profissional um sentimento de vergonha, seguido de reflexão e mudança de comportamento.

Vivianne decidiu não divulgar o nome do profissional nem da clínica onde ele trabalha, localizada em uma área nobre da Capital. Segundo ela, a intenção da publicação não era promover ataques ou exposição pública, mas chamar atenção para um comportamento que ainda é frequentemente naturalizado.

“Foram muitas as mensagens que recebi de maneira privada, mas optei por não trazer a público o nome do profissional ou da clínica. Espero que a nossa conversa tenha servido para que ele faça uma reflexão, porque esse tipo de comportamento não cabe mais em nossa sociedade. Respeito importa acima de qualquer coisa”, declarou.

Misoginia está em discussão no Congresso Nacional

O episódio acontece em um momento em que o enfrentamento à misoginia ganhou espaço no debate legislativo brasileiro.

Em março de 2026, o Senado aprovou o Projeto de Lei 896/2023, que propõe incluir a misoginia entre os crimes de preconceito e discriminação. A matéria seguiu para a Câmara dos Deputados, que aprovou, em 1º de julho de 2026, o regime de urgência para sua análise. Até o momento, a proposta continua em tramitação.

Durante a discussão do texto, a definição passou a considerar manifestações de menosprezo ou discriminação motivadas pela condição de mulher, demonstrando que o debate não está limitado às formas mais explícitas de ódio, mas também alcança práticas que reforçam desigualdades e inferiorizam o público feminino.

Embora uma mensagem isolada deva ser analisada dentro de seu contexto e não possa ser automaticamente classificada como crime, o episódio evidencia como estereótipos de gênero continuam presentes em situações comuns, inclusive durante a contratação de um serviço.

A jornalista finalizou pontuando que, mais do que discutir pontualidade, a repercussão apresenta uma pergunta necessária: por que uma conduta individual ainda é utilizada para rotular todas as mulheres?

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