A destruição de uma casa de reza indígena e as denúncias de ameaças contra comunidades Guarani Kaiowá colocaram Tacuru, no sul de Mato Grosso do Sul, sob atenção das autoridades. Diante dos episódios, a deputada estadual Gleice Jane (PT) pediu uma investigação rigorosa e informou que seu mandato na Assembleia Legislativa acompanha os casos e recebe relatos de possíveis violações de direitos.
O incêndio ocorreu na quinta-feira (29), na região de Jaguapiré, e atingiu a residência da rezadora tradicional Roberta. Além do imóvel, as chamas destruíram objetos utilizados em cerimônias religiosas.
A indígena suspeita que o episódio esteja relacionado à intolerância religiosa. Ela relatou já ter sofrido preconceito e violência por preservar as práticas espirituais de seu povo.
A Polícia Civil investiga as circunstâncias do incêndio, enquanto a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) enviou um representante à comunidade. A origem do fogo ainda não foi esclarecida, e não há confirmação de ação criminosa ou motivação religiosa.
Deputada pede esclarecimentos sobre destruição de espaço sagrado
Líder da bancada do PT na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (Alems), Gleice Jane defendeu que as investigações considerem também os relatos de discriminação enfrentados pela rezadora e por outros integrantes das comunidades indígenas.
“Estamos acompanhando com muita preocupação o que está acontecendo em Mato Grosso do Sul. Uma casa de reza não é apenas uma construção. É um espaço sagrado, de preservação da espiritualidade, da memória e da cultura de um povo. Precisamos esclarecer as circunstâncias desse incêndio e garantir que todas as denúncias sejam investigadas”, afirmou a deputada.
Segundo a parlamentar, seu gabinete está reunindo informações e acompanhando os encaminhamentos das denúncias às instituições responsáveis.
MPF exige respostas sobre ameaças de envenenamento
Em outra frente de investigação, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou procedimentos para examinar relatos de violência e intimidação contra indígenas de Mato Grosso do Sul após o segundo turno das eleições presidenciais de 2026.
A atuação do órgão começou depois que a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) encaminhou denúncias de ataques, ameaças e suspeitas de contaminação da água utilizada pelas comunidades.
Em Tacuru, a Procuradoria da República em Dourados concedeu prazo de 48 horas para que a prefeitura esclarecesse a origem e a autenticidade de gravações com supostas ameaças de envenenamento da água consumida por indígenas.
O MPF também solicitou informações sobre as providências adotadas para proteger os moradores e assegurar a continuidade dos serviços públicos.
Caso sejam encontrados indícios consistentes de participação de funcionários municipais nas ameaças, o órgão recomendou a abertura de processos administrativos disciplinares e o afastamento cautelar dos envolvidos.
Já em Naviraí, as diligências do MPF descartaram a versão de que um caso de violência divulgado nas redes sociais estivesse relacionado a ataques políticos contra indígenas. A apuração identificou uma tentativa de duplo homicídio decorrente de um conflito interpessoal, sem motivação política ou étnica.
Liderança Guarani Kaiowá relata mensagens de ódio
As denúncias de hostilidade também foram apresentadas publicamente pelo historiador e ativista climático Jânio Kaiowa, secretário do Aty Guasu, organização ligada às comunidades Guarani e Kaiowá.
Em publicação nas redes sociais, ele relatou o recebimento de ameaças e manifestações discriminatórias.
“Nós recebemos muitas mensagens de ódio, recebemos muitas ameaças de morte também. A gente sabe que Mato Grosso do Sul tem histórico de violência contra o povo Guarani Kaiowá”, declarou.
Jânio também mencionou a circulação de listas que classificariam estabelecimentos comerciais de acordo com as preferências políticas de seus proprietários. Segundo a liderança, existe receio de que essas informações sejam utilizadas para promover retaliações.
Ao comentar os relatos, Gleice Jane defendeu a atuação das instituições de fiscalização e segurança pública.
“Não podemos naturalizar ameaças, discriminação ou qualquer forma de violência contra os povos indígenas. São comunidades que enfrentam conflitos históricos pela garantia de seus direitos e que precisam ter sua integridade física, seus territórios e suas manifestações culturais respeitados. Nosso mandato está recebendo denúncias, apurando as informações e acompanhando os encaminhamentos necessários”, afirmou.
Dourados terá manifestação em defesa dos povos indígenas
Em meio às investigações, uma mobilização em defesa da vida indígena está prevista para sábado (31), às 9h, na Praça Antônio João, em Dourados.
O ato busca chamar a atenção para as denúncias de violência e para a necessidade de proteção das comunidades e de suas manifestações culturais e religiosas.
Gleice Jane afirmou que continuará acompanhando os casos e cobrando providências das autoridades.
“Os povos indígenas têm o direito de viver sem medo, de preservar sua cultura, exercer sua espiritualidade e permanecer em seus territórios. O poder público precisa assegurar esses direitos. Seguiremos atentos às denúncias e cobrando providências para que nenhuma ameaça ou violência fique sem a devida apuração”, concluiu.