Há escritores que preferem inventar mundos fantásticos. Henrique Pimenta escolhe um desafio maior: observar a realidade. E, convenhamos, ela já fornece material suficiente para qualquer pesadelo.
Nesta sexta-feira, às 18h, o autor apresenta em Campo Grande o livro "Atirei uma pedrinha na lagoa Mansidão", publicado pela Editora Mondrongo. O lançamento acontece na Hámor Livraria, depois da estreia na Feira Literária de Bonito (FLIB), em julho.
O novo volume fecha a chamada "trilogia do horror urbano", conjunto de livros em que Pimenta passeia por personagens que poderiam ser seus vizinhos, colegas de trabalho ou aquele sujeito que finge não ver ninguém no elevador. Pessoas comuns, vivendo situações que oscilam entre o ridículo, a violência, a crueldade e um humor que não oferece conforto — apenas revela o tamanho da rachadura.
Segundo o escritor, as histórias nascem justamente desse cotidiano.
"Gosto de escrever sobre aquilo que me vem aos sentidos todos os dias. São histórias de gente que, muitas vezes, convive com alguns probleminhas, por isso, tenho que usar de humor e de um pouco de ironia, para temperar certas situações que beiram a tragédia."
Embora os personagens sejam fictícios, o próprio autor admite que muitos leitores reconhecerão neles traços de pessoas que encontram diariamente. Talvez esse seja o aspecto mais inquietante do livro: a ficção faz questão de lembrar que a realidade quase sempre chega primeiro.
Radicado em Campo Grande desde 1995, Henrique Pimenta é mestre em Estudos Literários e chega ao sexto livro publicado. Seu percurso inclui o premiado "Ele adora a desgraça azul", vencedor do Prêmio Guavira de Literatura (2017) e do Prêmio Leia (2020), além do livro de poemas "Tríduo rudo", lançado em 2025 após quase oito anos de elaboração.
A escritora Isloany Machado, que divide a mediação do lançamento com Flavio Rocha, destaca que a força da narrativa está justamente na humanidade — ou na falta dela.
Segundo ela, os contos revelam personagens marcados por uma crueza que frequentemente se transforma em crueldade, aproximando o humano de sua dimensão mais animalesca e provocando um desconforto que permanece mesmo depois da última página.
Flavio Rocha segue na mesma direção ao afirmar que os narradores e personagens parecem tão mergulhados na violência urbana que já não conseguem distinguir os próprios limites éticos. Para ele, as situações insólitas construídas por Pimenta desestabilizam o leitor do início ao fim — exatamente como fazem as boas histórias, aquelas que recusam finais fáceis e respostas confortáveis.
Em tempos de discursos cuidadosamente embalados para não incomodar ninguém, Henrique Pimenta faz o movimento contrário: escreve para provocar. Porque, às vezes, basta uma pedrinha lançada na superfície da lagoa para mostrar que a mansidão era apenas aparência.
Serviço
Lançamento: Atirei uma pedrinha na lagoa Mansidão
Autor: Henrique Pimenta
Data: Sexta-feira
Horário: 18h
Local: Hámor Livraria
Endereço: Rua Amazonas, 1080, Bairro São Francisco, Campo Grande (MS)