As férias escolares alteram a rotina das famílias e exigem atenção redobrada com a segurança das crianças. Com mais tempo em casa, em viagens, na residência de parentes ou em locais de lazer, aumentam as chances de acidentes como quedas, queimaduras, engasgos, intoxicações e afogamentos.

Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) mostram que, em 2024, 456 crianças e adolescentes de até 19 anos morreram em decorrência de acidentes domésticos no Brasil. As principais causas foram riscos acidentais à respiração, responsáveis por 213 mortes. Na sequência aparecem afogamentos e submersões acidentais (104), exposição à corrente elétrica, radiação ou pressão extrema (33), quedas (29) e exposição à fumaça, fogo ou chamas (23).

Cuidados simples reduzem os riscos

O fisioterapeuta e enfermeiro André Luiz Hoffmann, especialista em urgência e emergência e instrutor da CoreHelp Educação e Saúde, afirma que a prevenção começa pela identificação dos riscos presentes no ambiente.

"Nas férias, a criança passa mais tempo em ambientes que nem sempre estão preparados para recebê-la. Por isso, é preciso olhar a casa, o local de passeio ou a hospedagem a partir da altura da criança, identificando riscos que muitas vezes passam despercebidos pelos adultos", orienta.

Entre as recomendações estão instalar telas ou grades em janelas e escadas, retirar tapetes que possam provocar quedas e manter facas, tesouras, produtos de vidro, medicamentos e materiais de limpeza fora do alcance das crianças.

Na cozinha, o especialista orienta utilizar as bocas traseiras do fogão, manter os cabos das panelas voltados para dentro e evitar manipular líquidos quentes com a criança no colo.

Objetos pequenos também exigem atenção. Moedas, peças de brinquedos e alguns alimentos podem provocar engasgos. Uma orientação prática é verificar se o objeto passa pelo interior de um rolo de papel higiênico. Caso passe, ele não deve ficar ao alcance das crianças. Alimentos como uvas e ovos de codorna devem ser cortados no sentido do comprimento.

Atenção redobrada em viagens e passeios

Segundo a pediatra Danielle Priscila Mauro Hoffmann, integrante da Sociedade Brasileira de Pediatria e instrutora da CoreHelp Educação e Saúde, os riscos aumentam quando as famílias saem da rotina.

Casas de parentes, hotéis e imóveis de temporada nem sempre possuem telas de proteção, travas de segurança, protetores de tomadas ou armazenamento adequado de medicamentos e produtos químicos.

"Um erro comum é acreditar que, por haver muitos adultos no ambiente, a criança está sendo observada. Em reuniões familiares, todos acham que alguém está cuidando, mas nem sempre há uma pessoa realmente responsável naquele momento. O ideal é definir quem fará a supervisão ativa da criança, especialmente perto da água", explica.

Em piscinas, rios, cachoeiras e praias, a recomendação é manter a criança sempre ao alcance de um braço de distância. Os especialistas lembram que boias de braço não substituem coletes salva-vidas adequados nem a supervisão permanente de um adulto.

Como agir em caso de acidente

Mesmo com medidas preventivas, acidentes podem acontecer. Em cortes, a orientação é lavar o ferimento com água e sabão e estancar o sangramento com pressão direta utilizando gaze ou pano limpo. Substâncias caseiras, como pó de café ou açúcar, não devem ser aplicadas.

Quando houver suspeita de fratura, o membro lesionado deve permanecer imobilizado na posição em que foi encontrado, sem tentativas de reposicionar o osso.

Batidas na cabeça exigem avaliação médica imediata se houver perda de consciência, vômitos repetidos, sonolência excessiva, irritabilidade intensa ou sangramento pelo nariz ou ouvido.

Nos episódios de engasgo, enquanto a criança conseguir tossir ou chorar, a recomendação é incentivá-la a continuar tossindo. Caso ela não consiga respirar, tossir ou emitir sons, é necessário iniciar as manobras de desobstrução e acionar o serviço de emergência.

Em queimaduras, o local deve permanecer sob água corrente fria por 10 a 15 minutos. Pasta de dente, manteiga, gelo, clara de ovo e outros produtos caseiros não devem ser utilizados.

Já nos casos de intoxicação por medicamentos, produtos de limpeza, cosméticos ou plantas, a orientação é procurar atendimento imediatamente e levar a embalagem do produto para facilitar a identificação da substância.

Conhecimento pode fazer a diferença

Os especialistas também recomendam que as famílias mantenham um kit básico de primeiros socorros durante viagens, contendo gaze estéril, esparadrapo, micropore, soro fisiológico 0,9%, curativos adesivos, termômetro digital, tesoura de ponta romba e pinça. Medicamentos devem ser administrados apenas com orientação médica.

Para André Hoffmann, controlar o nervosismo é fundamental durante uma emergência.

"O adulto precisa respirar fundo, avaliar se o ambiente está seguro, chamar ajuda e agir com firmeza. Muitas vezes, na tentativa de ajudar, as pessoas recorrem a mitos populares, como chacoalhar a criança, puxar algo da garganta sem enxergar ou aplicar produtos caseiros em queimaduras. Essas atitudes podem piorar o quadro", alerta.

O diretor da CoreHelp Educação e Saúde, Denis Corrêa, destaca que noções de primeiros socorros podem contribuir para reduzir danos até a chegada do atendimento especializado.

"Muitas vezes, quem está por perto é a primeira pessoa que pode ajudar. Saber reconhecer a gravidade, chamar socorro e iniciar as manobras corretas pode ser decisivo para salvar uma vida", afirma.