O Pantanal costuma ser lembrado pelas águas que avançam sobre os campos, pela fauna exuberante e pelas paisagens que mudam a cada estação. Mas há outra riqueza que quase nunca aparece nos cartões-postais: a história das mulheres que viveram, trabalharam e criaram famílias no coração do bioma.

Foram elas que cozinharam para peões antes do amanhecer, caminharam quilômetros em busca de água durante a seca, enfrentaram meses de isolamento nas cheias e transformaram fazendas distantes em lares. Muitas dessas histórias permaneceram restritas à memória das famílias. Agora, começam a ocupar as páginas de um livro.

Em "Olhares – Histórias de Mulheres Pantaneiras da Nhecolândia", a escritora e pecuarista sul-mato-grossense Gabriela Bacchi reúne depoimentos de 26 mulheres que ajudam a revelar um Pantanal pouco conhecido: aquele visto por quem o construiu silenciosamente, longe dos holofotes.

Muito além da paisagem

Entre as personagens está Leonice Clemente Vidal, de 62 anos. Natural de Rio Verde de Mato Grosso, ela chegou ao Pantanal ainda jovem, quando viver em uma fazenda significava abrir mão de quase tudo o que fazia parte da rotina urbana.

Não havia energia elétrica. A água precisava ser buscada longe. Durante as cheias, o acesso só era possível de trator. O isolamento era parte da vida.

Mesmo diante das dificuldades, foi ali que Leonice criou raízes.

"O começo foi difícil e o isolamento despertava saudades da minha família. Porém, com o passar dos anos, eu aprendi a gostar muito do Pantanal e das pessoas com quem convivi. Criei laços de amizade e aprendi muito com a sabedoria dos mais velhos."

Ao ver sua trajetória registrada no livro, ela diz sentir que uma parte da história do Pantanal deixa de correr o risco de desaparecer.

"Fiquei muito feliz pelo convite e por minha experiência ser lembrada. Hoje está cada vez mais difícil encontrar pessoas interessadas em morar e trabalhar no Pantanal, por isso acho importante contar nossas histórias."

O trabalho que quase ninguém via

Outra voz presente em Olhares é a de Ana Paula Clemente Lemes, de 33 anos, nascida em Corumbá.

Seu primeiro emprego foi na cozinha de uma fazenda. O que começou como uma ajuda para a tia rapidamente se transformou na responsabilidade de preparar diariamente as refeições de cerca de vinte trabalhadores.

A rotina começava ainda de madrugada.

"Meu tio foi muito importante no começo do meu ofício e me acordava cedo para preparar o desjejum dos homens que trabalhavam no campo."

Ela acredita que o trabalho feminino ainda é pouco compreendido por quem conhece o Pantanal apenas de longe.

"Muitas vezes dizem que o trabalho da mulher é mais leve, mas não é assim. A cozinha é a primeira a começar e a última a terminar. Enquanto os homens encerram o serviço no sábado à tarde, nós seguimos trabalhando de domingo a domingo."

Para Ana Paula, participar da obra significa reconhecer um papel que por muito tempo permaneceu invisível.

"Me senti muito feliz em contar minha história, porque o trabalho feminino também é muito importante no dia a dia do Pantanal."

Guardiãs de uma memória

Durante a produção do livro, Gabriela Bacchi percebeu que as entrevistas tinham algo em comum.

Não era apenas a capacidade de enfrentar dificuldades.

Era a forma como essas mulheres transformavam escassez em abundância, simplicidade em acolhimento e rotina em tradição.

"Sempre me encanto com a sabedoria delas diante das coisas simples. Transformam o pouco em abundância e o simples em essencial."

Mais do que registrar lembranças, a autora buscou preservar um patrimônio que raramente aparece nos livros de história.

Ao lado dos relatos, a obra reúne receitas preparadas nas comitivas e nas fazendas, apresenta capítulos dedicados ao bioma pantaneiro e traz um glossário com expressões típicas da região, ajudando o leitor a compreender o universo cultural da Nhecolândia.

Da esquerda para direita, Ana Paula, Gabriela Bacchi e Leonice Da esquerda para direita, Ana Paula, Gabriela Bacchi e Leonice Divulgação

Histórias que ajudam a compreender o Pantanal

Com lançamento previsto para agosto, em Campo Grande, Olhares nasce como um convite para enxergar o Pantanal por outra perspectiva.

Não apenas pela força da natureza, mas pelas pessoas que aprenderam a viver em harmonia com ela.

Para Gabriela Bacchi, reconhecer essas trajetórias é também reconhecer quem ajudou a construir a identidade do bioma.

"Quero que o leitor feche o livro com a sensação de ter estado no Pantanal e de compreender que o verdadeiro patrimônio desse lugar está nas pessoas que constroem sua história todos os dias."