Dor no peito, tontura, palpitações e dificuldade para respirar podem ser sinais de que o organismo está enfrentando um problema durante a atividade física. Embora o aumento dos batimentos cardíacos e da respiração seja esperado durante uma corrida, determinados sintomas exigem a interrupção imediata do exercício e, em alguns casos, atendimento médico de urgência.
O cuidado vale tanto para corredores iniciantes quanto para atletas experientes, especialmente durante períodos de preparação para competições que exigem maior resistência física. Com a proximidade da tradicional Corrida Internacional de São Silvestre, realizada em 31 de dezembro, em São Paulo, a atenção à saúde cardiovascular ganha espaço entre as recomendações para quem pretende participar de provas de rua.
Segundo Denis Corrêa, instrutor da CoreHelp, instituição especializada em treinamentos para situações de emergência, reconhecer os primeiros sinais de uma complicação pode evitar consequências mais graves.
Quais sintomas exigem a interrupção da corrida?
O cansaço muscular, o suor e a aceleração dos batimentos cardíacos fazem parte das respostas naturais do organismo ao exercício. O problema surge quando essas manifestações são acompanhadas por desconfortos incomuns ou desproporcionais à intensidade da atividade.
Entre os sintomas que merecem atenção estão dor ou pressão no peito, falta de ar intensa, tontura, sensação de desmaio e palpitações acompanhadas de mal-estar.
“Esses sintomas podem estar relacionados a arritmias, alterações na circulação sanguínea ou outras condições cardiovasculares. Nem todo mal súbito, porém, é provocado por problemas cardíacos. Desidratação, exaustão pelo calor e alterações nos níveis de glicose também podem causar episódios de fraqueza, tontura e perda de consciência”, explica Denis.
Diante dessas manifestações, a recomendação é parar de correr e procurar avaliação médica. Dor no peito, desmaio e dificuldade respiratória intensa exigem atendimento de urgência.
Mesmo quando os sintomas desaparecem após alguns minutos de descanso, o corredor não deve retomar o exercício sem avaliação adequada.
Como socorrer alguém que desmaia durante uma prova?
A rapidez no atendimento é fundamental quando uma pessoa perde a consciência durante uma corrida. O primeiro passo é verificar se ela responde aos chamados e se está respirando normalmente.
Se estiver inconsciente e não respirar normalmente, a situação deve ser tratada como uma possível parada cardíaca. É necessário acionar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo número 192, e iniciar as manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP).
As compressões devem ser realizadas no centro do peito, em ritmo de 100 a 120 por minuto, permitindo que o tórax retorne à posição normal entre cada movimento.
Caso exista um desfibrilador externo automático (DEA) nas proximidades, o equipamento deve ser utilizado o mais rapidamente possível, seguindo suas instruções. As manobras devem continuar até que a pessoa apresente sinais de recuperação ou a equipe de emergência assuma o atendimento.
“O atendimento rápido é um dos fatores associados à sobrevivência. A American Heart Association aponta que a RCP iniciada imediatamente por pessoas que presenciam uma parada cardíaca pode dobrar ou até triplicar as chances de sobrevivência”, lembra o instrutor.
Estudo analisou 176 paradas cardíacas em corridas de longa distância
Uma pesquisa publicada em 2025 na revista científica JAMA analisou registros de maratonas e meias-maratonas realizadas nos Estados Unidos entre 2010 e 2023.
O levantamento considerou aproximadamente 29,3 milhões de participações e identificou 176 paradas cardíacas, das quais 59 terminaram em morte. A frequência foi de aproximadamente um episódio a cada 167 mil participações.
Os casos foram proporcionalmente mais frequentes entre homens e participantes de maratonas do que entre corredores de meias-maratonas. Nos episódios em que foi possível determinar a causa, a doença arterial coronariana apareceu com maior frequência.
O estudo também identificou uma redução na proporção de mortes entre pessoas que sofreram parada cardíaca durante essas provas. O percentual passou de 71%, no período de 2000 a 2009, para 34% entre 2010 e 2023.
Os pesquisadores associaram a melhora dos resultados à assistência mais rápida e à disponibilidade de equipamentos de desfibrilação, entre outros fatores ligados ao atendimento de emergência.
Crescimento das corridas exige atenção ao preparo físico
A corrida de rua ganhou espaço no calendário esportivo brasileiro. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (Abraceo), o país registrou 5.241 provas oficiais em 2025, contra 2.827 no ano anterior, um crescimento de 85%.
A entidade estima que aproximadamente 15 milhões de brasileiros pratiquem a modalidade.
Entre os eventos mais conhecidos está a São Silvestre, que reuniu 55 mil inscritos em 2025. O percurso de 15 quilômetros exige preparação, especialmente para quem está começando a correr ou pretende aumentar a distância percorrida.
A progressão gradual dos treinos, a hidratação e os intervalos de descanso fazem parte dos cuidados recomendados. Pessoas com doenças cardíacas diagnosticadas, sintomas durante o esforço ou histórico familiar de morte súbita devem procurar orientação médica individualizada antes de intensificar as atividades.
Denis também chama a atenção para a importância de corredores, organizadores e espectadores conhecerem procedimentos básicos de primeiros socorros.
“Uma parada cardíaca pode acontecer tanto durante uma competição esportiva quanto em uma caminhada no parque ou em outras situações do cotidiano”, alerta.
Para os participantes de provas de rua, a orientação é respeitar os limites do organismo e não insistir na atividade diante de sintomas incomuns. Já para quem presencia uma emergência, reconhecer a situação e iniciar o socorro rapidamente pode aumentar as chances de sobrevivência.