O sucesso do açaí no mercado internacional vem transformando a economia da Amazônia ao ampliar a renda de milhares de produtores e fortalecer as exportações brasileiras. Ao mesmo tempo, o crescimento acelerado da demanda desperta discussões sobre os efeitos do cultivo intensivo na biodiversidade das áreas de várzea e sobre o aumento do preço da fruta para quem faz dela um alimento cotidiano na região.
Exportações ampliam oportunidades no campo
Antes restrito ao consumo regional, o açaí conquistou espaço em mercados da Europa, América do Norte e Ásia, impulsionado pela reputação de alimento rico em antioxidantes e associado a hábitos saudáveis. Em países como a Alemanha, cafeterias e lojas especializadas passaram a incluir a fruta no cardápio, ampliando o consumo internacional.
Os números mostram a dimensão desse crescimento. Dados da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) indicam que as exportações paraenses saltaram de apenas uma tonelada, em 1999, para mais de 60 mil toneladas em 2023. O Pará responde por quase 90% da produção nacional e movimentou aproximadamente R$ 9 bilhões em 2024.
Para Denise Acosta, presidente do Sindicato das Indústrias de Frutas e Derivados do Estado do Pará (Sindifrutas), o avanço da cadeia produtiva representa geração de renda para milhares de famílias ribeirinhas.
"Cada lata que eu bato aqui volta para o interior, para uma família. Então aumentou a renda das famílias, aumentou a dignidade desse povo ribeirinho", afirmou.
O pesquisador Hervé Rogez, da Universidade Federal do Pará (UFPA), destaca que a atividade também trouxe melhorias sociais em diversas comunidades, com maior acesso à energia elétrica, transporte, internet e educação durante os períodos de safra.
Preço elevado preocupa consumidores da região
Se por um lado a valorização internacional fortalece a economia, por outro ela também modifica a realidade de quem tradicionalmente consome a fruta na Amazônia.
No Pará, o açaí é considerado parte essencial da alimentação e costuma acompanhar peixes, camarões e carnes, diferentemente da forma como é servido em boa parte do restante do mundo.
Segundo dados do Dieese Pará citados pela reportagem, o litro do chamado açaí grosso chegou a variar entre R$ 41 e R$ 65 em Belém no início deste ano, cenário que preocupa especialistas por limitar o acesso das famílias de menor renda ao alimento.
Expansão da produção divide opiniões
Outro ponto debatido é o efeito da crescente produção sobre o meio ambiente.
Hervé Rogez afirma que, em diversas áreas de várzea, o manejo passou a priorizar o açaizeiro em detrimento de outras espécies nativas, reduzindo a diversidade vegetal e afetando animais, polinizadores e o equilíbrio ecológico.
"Temos um aumento da produção que se traduz por uma diminuição da biodiversidade no ecossistema de várzea", afirmou o pesquisador.
Pesquisas anteriores já haviam identificado esse fenômeno, conhecido entre cientistas como "açaização", associado à substituição gradual da vegetação nativa por áreas dominadas pelo cultivo da palmeira do açaí.
Setor produtivo defende manejo sustentável
Representantes da cadeia produtiva contestam a ideia de que a expansão do açaí esteja necessariamente ligada à degradação ambiental.
Denise Acosta afirma que boa parte da produção ocorre em sistemas agroflorestais e em áreas de várzea preservadas, onde o cultivo depende da manutenção da floresta e da presença de outras espécies vegetais.
Segundo ela, produtores também têm ampliado o cultivo consorciado com culturas como cacau, banana e mandioca, estratégia que busca manter a diversidade das áreas de produção.
Clima também preocupa produtores
Além das discussões sobre biodiversidade, as mudanças climáticas surgem como outro desafio para o setor. Períodos recentes de seca na Amazônia reduziram a produtividade dos açaizais, afetando a safra seguinte.
Para Hervé Rogez, atender ao crescimento da demanda mundial sem comprometer a floresta será um dos principais desafios da cadeia produtiva nos próximos anos.
Segundo o pesquisador, o desenvolvimento econômico e a conservação ambiental precisam caminhar juntos para garantir que os benefícios do açaí sejam duradouros tanto para as comunidades amazônicas quanto para o ecossistema.
Matéria original por Thiago Melo/DW