Antes de vestir a camisa da Seleção Brasileira, Arthur Dias foi um menino que chamou atenção nas quadras de Campo Grande. Aos 19 anos, o zagueiro do Athletico-PR acaba de alcançar um dos maiores passos da carreira ao aparecer entre os convocados pelo técnico Carlo Ancelotti para os amistosos contra Austrália e Índia.

O nome do campograndense foi anunciado nesta quarta-feira (9), na primeira convocação de Ancelotti para este novo ciclo da Seleção rumo à Copa do Mundo de 2030. A lista coloca novamente Mato Grosso do Sul entre as histórias que chegam à equipe principal do futebol brasileiro.

A convocação, porém, começou a ser construída muitos anos antes, quando Arthur ainda atuava no futsal e disputava competições em Campo Grande. Foi nesse período que professores e profissionais do futebol local passaram a identificar características que poderiam levá-lo mais longe.

Para a mãe do jogador, Patrícia Soares, a espera pela confirmação da convocação foi marcada pela fé.

“Estou muito feliz neste momento. Só tenho a agradecer a Deus por estar nos abençoando e dando essa oportunidade para o meu filho. Eu orei a manhã toda. Pedi a Deus que, se fosse da vontade Dele, o Arthur fosse convocado. Deus ouviu minhas orações”, disse.

O início nas quadras de Campo Grande

Um dos profissionais que acompanhou Arthur ainda nas categorias menores foi o professor Sérgio Pavão. Ele lembra que o garoto já se destacava no Sub-11, inclusive pela presença física acima da média para a idade.

“Ele foi muito especial. No Sub-11, já era um craque, chamava atenção e, principalmente, pelo porte físico. Era muito grande para a idade”, recorda.

Arthur chegou a ser capitão da equipe comandada por Pavão. A relação entre os dois também foi construída em um momento de recomeço profissional do treinador. Antes de integrar o Pavão Sports, Arthur havia treinado com Sérgio em um projeto ligado ao Guaicurus.

Foi nesse período que o garoto começou a deixar as quadras para experimentar de maneira mais frequente o futebol de campo.

“Essa transição de sair do futsal e começar no futebol de campo foi comigo. Acabando esse projeto do Guaicurus, ele foi um dos que ficaram comigo no Pavão Sports”, explica Pavão.

O professor também recorda a confiança recebida da família, especialmente do pai do jogador, Anderson. Para ele, acompanhar agora a convocação do antigo aluno tem um peso especial.

“O Arthur Dias foi um dos que confiaram nesse meu recomeço e ficaram comigo. Você sabe que já chorei hoje. É muito gostoso sentir alegria pelos outros”, conta, emocionado.

Um atacante que virou zagueiro

A posição que levou Arthur à Seleção também é resultado de uma mudança importante durante sua formação. O jogador não começou como defensor. Nas categorias de base, atuava mais avançado, como centroavante ou ponta, e acumulava gols.

Murilo Moreira, que conheceu Arthur quando ele tinha 11 anos, acompanhou parte dessa trajetória. Segundo ele, o jovem reunia força física, habilidade e personalidade para jogar, além de aparecer frequentemente entre os destaques das competições.

“Ele fazia muitos gols nos campeonatos da região, tanto no futsal quanto no futebol. Sempre foi destaque, jogava em categoria acima. Sempre foi alto, grande, habilidoso e com muita personalidade para jogar”, lembra.

A mudança veio posteriormente no Athletico-PR. Primeiro, Arthur foi testado na lateral esquerda. Depois, passou a atuar como zagueiro, posição na qual acabou encontrando espaço para desenvolver suas principais características.

A adaptação exigiu tempo. A princípio, deixar o setor ofensivo não agradou ao jovem, mas a nova função passou a fazer sentido à medida que ele compreendeu melhor as exigências da posição.

Para Murilo, a capacidade de interpretar o jogo foi uma das características que permaneceram durante a transformação do atleta.

“Ficamos muito felizes com o progresso dele, com o entendimento de jogo que ele tem e com a personalidade. Não é fácil assumir uma posição de destaque”, afirma.

Do futebol sul-mato-grossense ao Athletico

Murilo teve participação importante na aproximação de Arthur com o clube paranaense. Entre 2018 e 2020, ele trabalhou como observador técnico do Athletico na região Centro-Oeste, buscando jovens jogadores para avaliações.

Quando assumiu a função, Arthur foi um dos primeiros nomes que lembrou.

“Quando tive essa oportunidade, um dos primeiros meninos que vieram à minha cabeça foi o Arthur. É um menino por quem tenho um carinho muito grande. Conversei primeiramente com o pai dele e depois com a mãe”, relembra.

Antes de chegar definitivamente ao clube, Arthur passou por avaliações e períodos de acompanhamento. A pandemia interrompeu parte do processo, mas o jogador voltou posteriormente a Curitiba e entrou de vez nas categorias de base do Athletico.

Um dos momentos que ajudaram a abrir esse caminho aconteceu quando Arthur defendia o Chelsea Brasil MS. Em um torneio realizado em Rondonópolis, ele foi campeão, terminou como destaque e artilheiro da competição, segundo Murilo.

“Depois desse torneio ele já se apresentou para fazer a última fase de avaliação no Athletico. E daí não voltou mais”, resume.

Aos 19 anos, o salto para a Seleção

A evolução no Athletico fez Arthur se aproximar cada vez mais do futebol profissional. Segundo Murilo, aos 17 anos ele já treinava com o elenco principal e, aos 18, passou a conquistar espaço entre os profissionais.

O percurso também incluiu experiências nas categorias de base da Seleção Brasileira. A passagem pelos times juvenis aumentou a exposição do zagueiro e o colocou no radar da comissão técnica da equipe principal.

Agora, aos 19 anos, Arthur recebe a primeira convocação para a Seleção principal sob o comando de Carlo Ancelotti.

Para quem acompanhou o jogador desde Campo Grande, o momento representa o resultado de um processo que envolveu mudanças, distância da família e persistência.

“É um momento de muito orgulho por todo o processo. Não é fácil. Teve a distância da família lá no começo, as dúvidas, mas ele persistiu, aprendeu e teve muito apoio da família”, destaca Murilo.

Arthur leva Campo Grande para a Amarelinha

A história do zagueiro também ganha um significado especial para o futebol de Mato Grosso do Sul. O jogador começou no futsal, passou por projetos e competições locais, deixou Campo Grande ainda jovem para seguir a carreira em Curitiba e precisou se adaptar a uma nova posição até encontrar seu espaço na defesa.

Agora, a camisa que ele vestirá é a da Seleção Brasileira.

A equipe enfrenta a Austrália em dois amistosos neste mês. O primeiro será no dia 25 de setembro, no Queensland Country Bank Stadium, em Townsville. O segundo está marcado para 29 de setembro, no Suncorp Stadium, em Brisbane.

Depois, a delegação seguirá para a Índia. Em 3 de outubro, o Brasil enfrenta a seleção indiana no Salt Lake Stadium, em Calcutá, no primeiro confronto entre as equipes principais dos dois países.

Em Campo Grande, a notícia foi recebida por familiares e antigos professores que acompanharam diferentes etapas da formação do jogador.

Pavão resume em poucas palavras a emoção de ver onde chegou o garoto que conheceu nas categorias menores.

“Já chorei hoje. É muito gostoso sentir alegria pelos outros.”

Murilo também vê a convocação como o início de uma trajetória que ainda pode crescer.

“É só o começo de uma carreira muito grande, com certeza.”

Para Patrícia, a convocação encerra uma manhã de expectativa e oração com a confirmação de que o filho havia alcançado a Seleção.

“Pedi a Deus que, se fosse da vontade Dele, o Arthur fosse convocado. Deus ouviu minhas orações.”

Aos 19 anos, Arthur Dias leva para a Seleção Brasileira uma história que começou muito longe dos grandes estádios, nas quadras e campos de Campo Grande. Agora, o futebol sul-mato-grossense ganha mais um representante na Amarelinha.

Com informações FFMS