O avanço dos casos de feminicídio em Mato Grosso do Sul motivou a deputada estadual Gleice Jane (PT) a apresentar uma Moção de Protesto na Assembleia Legislativa. A parlamentar defende que o enfrentamento à violência contra as mulheres seja tratado como prioridade permanente e afirma que as mortes registradas neste ano evidenciam a necessidade de ampliar as políticas públicas de prevenção.
Segundo a deputada, os 21 feminicídios contabilizados no Estado em 2026 revelam um cenário que não pode ser encarado como uma sucessão de episódios independentes.
"Quando chegamos a 21 mulheres assassinadas em pouco mais de sete meses, não estamos falando de casos isolados. Estamos diante de uma violência que se repete, que possui padrões e que precisa ser enfrentada como um problema estrutural e uma prioridade do Estado", declarou.
Indicadores acima da média nacional
Na justificativa da moção, Gleice Jane lembra que Mato Grosso do Sul já vinha registrando índices elevados de feminicídio. Em 2025, foram contabilizados 39 casos, contra 35 em 2024, o que representa crescimento de 10,5%.
O documento também destaca que a taxa estadual alcançou 2,6 feminicídios para cada 100 mil mulheres, índice superior à média nacional de 1,43, conforme dados citados na proposição.
Em âmbito nacional, o texto menciona levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública segundo o qual 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025, maior número registrado desde que o crime passou a ter tipificação própria na legislação brasileira. O estudo ainda aponta que, na maior parte dos casos, o autor mantinha ou havia mantido relacionamento afetivo com a vítima.
Prevenção deve começar antes da violência extrema
Para a parlamentar, o combate ao feminicídio passa pelo fortalecimento das ações preventivas e pela identificação dos primeiros sinais de violência.
"O feminicídio não começa no assassinato. Muitas vezes, antes dele existem controle, ameaça, perseguição, humilhação, violência psicológica, dependência econômica e agressões. Se queremos impedir essas mortes, precisamos conseguir interromper esse ciclo antes que ele chegue ao seu desfecho mais grave", afirmou.
Gleice Jane também ressaltou que familiares, vizinhos, colegas de trabalho, escolas, unidades de saúde, instituições religiosas e demais espaços de convivência podem desempenhar papel importante na identificação de situações de risco.
"Não basta termos leis se uma mulher ameaçada não consegue chegar a uma rede preparada para protegê-la. Precisamos transformar legislação, orçamento e estrutura pública em proteção concreta, especialmente quando os primeiros sinais de violência aparecem", disse.
Moção homenageia vítimas de 2026
Além de manifestar protesto institucional, a proposta presta homenagem às 21 mulheres vítimas de feminicídio registradas em Mato Grosso do Sul neste ano: Josefa dos Santos, Rosana Candia Ohara, Nilza de Almeida Lima, Beatriz Benevides, Liliane de Souza Bonfim Duarte, Leise Aparecida Cruz, Ereni Benites, Fátima Aparecida da Silva, Marlene Brito Rodrigues, Vera Lúcia da Silva, Zelita Rodrigues de Souza, Fabíola Marcotti, Maria do Carmo, Paula de Souza Conceição, Rosenilda de Oliveira Candelario, Terezinha Nantes de Arruda, Ana Carolina Goes, Adrielle Encarnação Rodrigues, Rose Batista Cabreira, Adriana Barrios e Nathalia Rodrigues Nogueira.
Ao justificar a homenagem, a deputada destacou que os números representam vidas interrompidas.
"São 21 mulheres. São 21 histórias interrompidas e famílias que terão de conviver com essas ausências. Dar nome a essas mulheres é também lembrar que atrás de cada número existe uma vida e que cada uma dessas mortes exige de nós responsabilidade", afirmou.
Na conclusão da moção, Gleice Jane conclama o Governo do Estado, as prefeituras, o sistema de Justiça, as forças de segurança e demais instituições públicas a priorizarem ações permanentes de enfrentamento à violência contra as mulheres.
"Cada novo caso precisa nos obrigar a perguntar onde a rede falhou, o que poderia ter sido feito antes e o que precisamos mudar para que outras mulheres permaneçam vivas", concluiu.