A decisão de usar ou não analgesia durante o trabalho de parto deveria partir de informação, e não de receios herdados de técnicas que já mudaram. Ainda circulam entre gestantes ideias de que o procedimento tira a força para fazer o bebê nascer, aumenta as chances de cesárea ou pode prejudicar a criança. Especialistas em anestesia obstétrica, porém, explicam que os recursos disponíveis atualmente permitem aliviar a dor preservando a participação da mulher no parto.
A questão ganha relevância em um cenário no qual as cesarianas correspondem a 60,6% dos nascimentos no Brasil, segundo dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde. O tipo de parto escolhido ou indicado envolve diferentes circunstâncias, e entre elas estão o medo da dor, a assistência oferecida à gestante e o conhecimento sobre as alternativas disponíveis.
Durante o 34º Congresso de Ginecologia e Obstetrícia de Mato Grosso do Sul, realizado no fim de setembro, em Campo Grande, o médico Fernando Nani, especialista em anestesia obstétrica, abordou justamente a evolução da analgesia de parto. Convidado pelo Servan Anestesiologia, ele participou da programação promovida pela SOGOMAT-SUL e discutiu o tema com profissionais da área.
“A dificuldade é desfazer essas informações erradas do passado. A gente já faz no Brasil uma analgesia de parto moderna há 20 anos”, afirma Nani.
O que mudou na analgesia de parto
Segundo o especialista, parte dos receios atuais tem origem em métodos empregados décadas atrás. Naquele período, eram utilizadas concentrações maiores de anestésicos, que poderiam comprometer mais a movimentação da mulher e estar associadas a intervenções como fórceps ou vácuo extrator.
A abordagem atual trabalha com técnicas e doses diferentes. Nani explica que é possível controlar a dor sem aumentar a incidência de cesarianas e, ao mesmo tempo, manter a mulher participando ativamente do nascimento.
A mudança também é percebida na rotina dos serviços que oferecem o procedimento. Em Campo Grande, a anestesiologista Helena Berriel, do Servan Anestesiologia, acompanha a transformação na forma como pacientes e profissionais enxergam a analgesia.
Segundo ela, durante muito tempo os próprios profissionais de saúde contribuíram para disseminar dúvidas sobre o método.
“A informação chegava de forma muito errada. Havia preocupação de que a analgesia atrapalhasse o parto, que a paciente perdesse a força ou que causasse algum mal para o bebê”, relata.
Experiência das pacientes ajudou a mudar percepção
No Humanizar, serviço especializado em analgesia de parto do Servan Anestesiologia, a proposta é oferecer controle da dor e acompanhamento médico durante o trabalho de parto. A experiência das próprias mulheres também contribuiu para mudar a percepção sobre o procedimento.
Helena conta que pacientes que passaram pela analgesia começaram a compartilhar suas experiências positivas com outras gestantes. Esse processo ajudou a ampliar o conhecimento sobre as possibilidades oferecidas pela anestesia obstétrica.
“As pacientes contavam umas às outras as experiências positivas com a analgesia durante o parto normal. O boca a boca ajudou muito também a mostrar na prática que a analgesia moderna evoluiu”, lembra.
A mudança também alcançou os obstetras. De acordo com a anestesiologista, a convivência com a técnica permitiu que esses profissionais observassem que o alívio da dor não significava necessariamente prejuízo para a evolução do parto.
“Eles foram entendendo que aquilo não traz repercussões negativas e vendo também como ajuda o trabalho deles, como a paciente fica bem e como o parto evolui bem.”
Outro ponto levantado por Helena é a possibilidade de a dor excessiva interferir na experiência da gestante a ponto de a cesariana ser considerada como uma maneira de interromper o sofrimento.
“A paciente não aguenta mais e acaba indo para a cesárea. E a gente fala: calma, existe uma alternativa”, diz. “O trabalho de conscientização é mostrar que essa alternativa existe e que ela é segura.”
Decisão pode ser discutida ainda no pré-natal
Conhecer a analgesia antes do início do trabalho de parto pode ajudar a gestante a tomar uma decisão com mais tranquilidade. A anestesiologista Agne Bocchi, também do Servan Anestesiologia, defende que o tema seja incluído nas conversas do pré-natal.
A orientação começa com o obstetra e pode prosseguir em uma consulta pré-anestésica, na qual a paciente pode esclarecer dúvidas e conhecer melhor as possibilidades disponíveis.
“O objetivo maior é que a gente conheça essas pacientes no pré-natal, converse, tire dúvidas e, quando chegue o dia do parto, ela já tenha esse conhecimento e saiba o momento de solicitar a analgesia”, explica Agne.
A médica ressalta que reduzir a dor não significa retirar da mulher a experiência do nascimento. Com o alívio adequado, a gestante pode permanecer consciente e participativa durante o processo.
“A analgesia não tira esse protagonismo da mulher. Na verdade, ela devolve a humanização do parto, porque você consegue vivenciar muito melhor. Consegue conversar, dar risada, comer, se hidratar. Você consegue viver o parto de fato, e não só estar ali sentindo dor.”
Equipamentos permitem controle mais individualizado
A evolução da analgesia obstétrica também passa pela tecnologia. Fernando Nani destaca o uso de bombas desenvolvidas especificamente para esse tipo de procedimento, permitindo ajustar a administração do anestésico às necessidades da paciente.
Em determinados sistemas, a própria gestante pode participar do controle do alívio da dor, sempre dentro dos limites estabelecidos previamente pela equipe médica.
Para o especialista, a possibilidade de adaptar a analgesia é importante porque cada mulher pode ter uma expectativa diferente sobre a experiência do parto.
“Cada paciente quer ter a sua própria experiência”, resume Nani.
Isso significa que a analgesia não precisa ser encarada como uma decisão obrigatória ou como uma escolha que define o grau de participação da mulher no nascimento. Algumas gestantes preferem passar por todo o trabalho de parto sem o procedimento. Outras podem optar pelo alívio da dor desde o início, enquanto há quem prefira decidir durante as contrações.
O ponto central, segundo os especialistas, é que a escolha seja feita com informação e acompanhamento médico. Assim, a decisão sobre como lidar com a dor durante o trabalho de parto deixa de ser determinada por mitos e passa a considerar as necessidades, expectativas e condições de cada gestante.
Evelise Couto