Tecnologia criada por crianças de 9 e 10 anos com auxílio de inteligência artificial permite que Rosinei Monteiro da Silva se comunique pelo piscar dos olhos

Estudantes do 4º e 5º anos do ensino fundamental da Escola Municipal Juvenal Fróes, da Rede Municipal de Ensino de Ponta Porã, desenvolveram um aplicativo que permite a pessoas com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), que perderam os movimentos e a capacidade de falar, se comuniquem por meio do piscar dos olhos. A ferramenta batizada de “Piscar e Falar” foi criada com auxílio de inteligência artificial e já está sendo utilizada pelo pedreiro Rosinei Monteiro da Silva, de 47 anos, morador do Assentamento Dorcelina Folador.

A iniciativa nasceu depois que a situação de Rosinei chegou ao conhecimento da coordenação pedagógica e da secretaria da escola. Sensibilizados com as dificuldades enfrentadas pelo paciente e sua família, os educadores propuseram aos estudantes transformar o caso em um desafio de aprendizagem, pesquisa e desenvolvimento tecnológico voltado à solução de um problema real.

O trabalho começou com uma assembleia de ideias, realizada em 13 de agosto, quando os alunos do 5º ano discutiram alternativas para ajudar Rosinei. Na sequência, realizaram pesquisas orientadas na Sala de Tecnologia e passaram a investigar soluções que já existiam no mercado. Em apenas três dias, os estudantes desenvolveram e testaram 16 versões do aplicativo.

Tecnologia acessível para dar voz ao paciente

Durante as pesquisas, os alunos aprenderam que a Esclerose Lateral Amiotrófica é uma doença neurodegenerativa que afeta os neurônios motores, provocando a perda progressiva dos movimentos e da capacidade de realizar atividades voluntárias. Em alguns casos, mesmo quando a pessoa perde a capacidade de falar e movimentar o corpo, os movimentos dos olhos permanecem preservados, possibilitando formas alternativas de comunicação.

Os estudantes também identificaram que algumas tecnologias desenvolvidas para esse público têm custos elevados, enquanto determinadas opções gratuitas oferecem recursos limitados. Diante desse cenário, decidiram criar uma alternativa acessível, que pudesse funcionar em dispositivos como tablets, celulares e televisores compatíveis.

Com o aplicativo, o paciente utiliza os olhos para selecionar letras e formar palavras e frases. A tela apresenta linhas que se iluminam sequencialmente, de cima para baixo. Quando a linha desejada acende, o usuário mantém os olhos fechados por um breve instante, selecionando-a. Em seguida, as letras daquela linha são iluminadas uma a uma, permitindo que ele escolha a letra desejada por meio do mesmo movimento.

O sistema diferencia uma piscada natural, rápida, do fechamento dos olhos mantido pelo tempo necessário para selecionar um item. Dessa forma, o paciente consegue construir mensagens que, ao serem concluídas, são reproduzidas em voz alta pelo aparelho.

Além da composição de palavras e frases, o aplicativo oferece mensagens previamente programadas para facilitar a comunicação cotidiana. Entre elas estão pedidos de ajuda, avisos de dor, solicitações de água, necessidade de ir ao banheiro, pedidos de medicamentos ou para chamar o médico, além de opções para assistir à televisão, ouvir música e expressar sentimentos, como dizer “eu te amo”.

O recurso permite que o paciente manifeste suas necessidades e mantenha o contato com familiares e amigos, mesmo diante das limitações impostas pela doença.

Inteligência artificial aliada à criatividade das crianças

De acordo com a direção da Escola Municipal Juvenal Fróes, o aplicativo foi desenvolvido na própria unidade escolar, a partir de uma proposta original dos estudantes e dos educadores, sem a simples reprodução de um programa existente.

O processo envolveu quatro etapas. Primeiro, os alunos pesquisaram as ferramentas disponíveis e identificaram as limitações das opções existentes, especialmente em relação ao custo e à variedade de recursos. Depois, experimentaram diferentes ferramentas de inteligência artificial para encontrar uma maneira de desenvolver a solução.

Na terceira etapa, a inteligência artificial auxiliou na elaboração do código do aplicativo, a partir dos comandos e das orientações definidos pela coordenação pedagógica. Entre as soluções trabalhadas estavam o reconhecimento do fechamento das pálpebras, a organização das letras e a reprodução sonora das mensagens.

A quarta etapa foi considerada fundamental: os testes realizados com o próprio beneficiário. Os estudantes envolvidos no projeto observaram o funcionamento do aplicativo, identificaram dificuldades e relataram o que precisava ser corrigido. As informações obtidas durante o uso real orientaram as alterações realizadas nas versões seguintes.

Ao todo, foram produzidas 16 versões em três dias. Segundo a escola, as observações dos estudantes durante os testes foram decisivas para aperfeiçoar a ferramenta e torná-la mais adequada às necessidades de Rosinei.

A experiência demonstra como a tecnologia, quando associada à criatividade, à pesquisa e à empatia, pode contribuir para a solução de problemas concretos e aproximar o conhecimento escolar da realidade da comunidade.

Família já utiliza o aplicativo

A esposa de Rosinei, Fabiana da Silva Monteiro, avaliou positivamente a iniciativa e destacou que o marido se sente melhor com a possibilidade de voltar a se comunicar de maneira mais direta desde que começou a conhecer e treinar o uso da ferramenta.

Para facilitar a adaptação, a escola emprestou inicialmente um tablet para que Fabiana aprendesse a utilizar o aplicativo e, posteriormente, pudesse orientar o marido na comunicação com a família e os amigos.

Com doações de alunos e professores, também foi adquirido um suporte articulado para posicionar o aparelho próximo ao leito, facilitando o acesso de Rosinei à tela.

Enquanto a família utiliza o equipamento emprestado pela escola, aguarda a possibilidade de receber a doação de um tablet próprio, que permita manter a ferramenta disponível para o uso cotidiano.

Autorização para divulgação

A escola também teve o cuidado de solicitar autorização para tornar pública a história de Rosinei e divulgar o projeto nos veículos de comunicação. O termo foi lido em voz alta, e o próprio paciente manifestou sua concordância utilizando o aplicativo e a comunicação por meio dos olhos. A autorização também foi formalizada com a assinatura de próprio punho de sua esposa, Fabiana.

O procedimento reforça o propósito central da iniciativa: reconhecer a capacidade de expressão e decisão do paciente e utilizar a tecnologia para ampliar suas possibilidades de comunicação.

Aplicativo gratuito pode ajudar outras pessoas

O aplicativo desenvolvido pelos estudantes da Rede Municipal de Ensino de Ponta Porã está disponível gratuitamente na internet e também poderá ser utilizado por outras pessoas que enfrentam dificuldades semelhantes de comunicação.

Os interessados podem acessar a ferramenta pelo endereço:

https://piscar-e-falar.netlify.app

A iniciativa da Escola Municipal Juvenal Fróes mostra que a educação vai além dos conteúdos tradicionais. Ao transformar um desafio em oportunidade de aprendizagem, crianças de 9 e 10 anos demonstraram que conhecimento, solidariedade e inovação podem caminhar juntos para melhorar a vida das pessoas.

*Edilson José, Assessoria de Comunicação

Alunos e professores da Escola Municipal Juvenal Fróes envolvidos no desenvolvimento do aplicativo “Piscar e Falar”, criado com auxílio de inteligência artificial – Foto: Vinicius Gamarra
A turma com a coordenação e as professoras regentes, na Escola Municipal Rural Juvenal Fróes, no dia da primeira visita ao assentamento
Os estudantes do 4º e do 5º Anos com Rosinei e Fabiana, na primeira visita na casa do paciente
Tela principal, na primeira linha tem a opção CHAMAR, SIM e NÃO, as três teclas mais rápidas do quadro
Tela de frases prontas: 24 frases ordenadas por urgência. As três primeiras são “Preciso de ajuda”, “Estou com dor” e “Quero água” — como a varredura desce linha a linha, essa ordem decide quantos segundos custa cada frase

O post Alunos da Escola Juvenal Fróes usam tecnologia para ajudar paciente com Esclerose Lateral Amiotrófica apareceu primeiro em Prefeitura Municipal de Ponta Porã.